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Jorge Martins
       (Lisboa, 1940)                                                                                         108



       Jorge Martins destaca-se no panorama artístico nacional pelo seu trabalho no
       desenho e na pintura, que trata de modo autónomo, inspirado pela articulação das
       dimensões de espaço e tempo abordadas nos campos da fotografia, do cinema
       e do teatro. O artista elabora o seu léxico figurativo influenciado pela pop art e
       pelo  nouveau  réalisme,  apropriando-se  do  espaço  de  representação  pictórico
       para aproximar de modo íntimo vida e arte. Sensivelmente a partir da década de
       1970, Jorge Martins desenvolve a sua pesquisa estética em torno de um discurso
       de cariz estruturalista e erudito assente nos valores do fenómeno da luz. Man-
       tendo um diálogo entre abstração e figuração, Jorge Martins elegerá a luz como
       mote representacional e imanente do suporte pictórico.




       Assim, dedica-se ao tratamento   de tradição cubista, futurista            Notas
       das superfícies e da modelação   e dadá,  evoca a polaridade indis-
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       dos volumes, recorrendo ao trompe    sociável e complementar entre         1. CARLOS, Isabel
       l’oeil, para tratar teórica e perce-  visibilidade e invisibilidade, audi-  (Coord.); MELO, Ana de
                                                                                   Vasconcelos, 100 Obras da
       tivamente a luz, a sombra e a cor.  bilidade e inaudibilidade, e entre      Colecção do CAM, Lisboa:
                                        tangibilidade e intangibilidade.           CAM – FCG, 2010, p. 144.
       Adquirida ao artista em 1997,    A aura enigmática que a obra
       Todo o visível vem do invisível, de   convoca por via da estratégia        2. MARTO, Bárbara (Org.),
       1973, reflete a orientação estética   lúdica patente na relação entre       Artistas Portugueses na
                                                                                   Colecção da Fundação de
       e investigativa que Jorge Martins   ocultação e revelação, enunciam         Serralves, Porto: Fundação
       assume. A superfície plana e     ambiguamente um outro espaço               de Serralves, 2009.
       horizontal organiza-se mediante    e um outro tempo exógeno ao
       a justaposição dos valores       espaço de representação pictural.         3. CASTRO CALDAS,
       saturados das cores azul e                                                  Manuel; GIL, José;
                                                                                   MOLDER, Maria Filomena;
       encarnada, aproximando-se do     Sem Título, de 1979, é um desenho          RIBEIRO, José de
       ciclo Who’s Afraid of Red, Yellow   doado à coleção no mesmo ano            Sommer, Jorge Martins:
       and Blue (1966-1970), de Barnett   em que Jorge Martins vendeu              Desenho 1957/1987, Lisboa:
       Newman. Centrado na composi-     a pintura. Executado com grafite           CAM – FCG, 1988.
       ção, e atravessando ambos        sobre papel, o trabalho representa        4. CASTRO CALDAS,
       os planos cromáticos, é pintado   múltiplos planos com diferentes           Manuel; OLIVEIRA, Filipa,
       um ilusório feixe de luz branca,   densidades, umas de maior poro-          Uma Pequena História
       modelado na superfície pictórica   sidade e outras mais compactas,          da Linha: Selecção de
       como uma dobra que contamina     umas aproximando-se do desva-              Desenhos da Colecção
       a superfície com cromatismos     necimento, outras mesclando-se             do Ar.Co, Lisboa: Sistema
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       que sugerem a existência, ainda   com as primeiras camadas dese-
       que de modo abstrato, de luz     nhadas na superfície do papel. Em         5. CABRAL, Manuel
       e sombra. Esse elemento surge    toda a composição entende-se               Villaverde; CARLOS,
       como materialização abstratizante    um subjacente movimento de             Isabel; GIL, José; RIBEIRO,
       da invisibilidade do fenómeno    automatismo linear que preenche            José de Sommer,
                                                                                   PEREIRA, Maria José
       luminoso e que justifica o excerto   todo o espaço disponível. Enten-       Moniz (Org.), Jorge
       de um poema retirado de          dendo o desenho como campo                 Martins: Pintura 1958-1993,
       Fragmentos de Novalis, que       autónomo, Jorge Martins capta              Lisboa: CAM – FCG, 1993.
       enquadra a tela a óleo.  Este    a contingência da organicidade
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       fragmento textual complementa    gestual e enuncia a pesquisa              6. MARTINS, Celso,
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       a leitura plástica e erudita da    artística sobre os fenómenos de          Cartaz, Expresso,
       pintura, contaminando-a com      luz e sombra.  O desenho não só            13 de abril de 2013.
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       um irrevogável sentido poético.    deixa transparecer a sua pesquisa
       O excerto desenhado a escantilhão     sobre a luz como sugere visual-
       em bandas de tonalidade alabas-  mente reminiscências da foto-
       tro, conforme o legado modernista     grafia e do cinema. 4
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