Page 116 - Fundação MEO - Coleção de Arte Contemporânea
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Maria José Oliveira
(Lisboa, 1943) 116
Maria José Oliveira desenvolve um trabalho em vários domínios, desde a cerâmica
ao desenho, e da fotografia à colagem e à instalação, assente num gosto pelo
experimentalismo e pela performatividade, na senda dos valores da arte povera.
Desde cedo que a artista manifesta interesse pelo questionamento de dimen-
sões como as do corpo e da natureza, tanto plasticamente como em termos con-
cetuais, ao articular as matérias com um discurso de cariz antropológico e cultual
desenvolvido à volta da visão do objeto, do quotidiano e do mundo. 1
Maria José Oliveira propõe um Mas onde nós estamos é a luz, Notas
discurso artístico singular, assu- de 2003, é o título da exposição
mindo-o como resultado do devir realizada na Galeria Arte Manifesto, 1. TAVARES, Cristina
resgatado da realidade, cujas no Porto, nesse ano, e um ano Azevedo, Sensibilidades
Femininas do Nosso
perceção e consciência estéticas depois, em 2004, à GIEFARTE – Tempo, Gabinete da
existem como matriz das suas Gabinete Internacional de Estudo Alta-Comissária para
propostas. e Financiamento de Arte, em a Igualdade e Família,
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Lisboa, onde foram adquiridas as Instituto da Comunicação
O carácter sensível e depurado obras para a coleção. Esta expo- Social, 1998.
da sua obra resulta da atitude sição apresentou oito obras que 2. PORFÍRIO, José Luís,
de observar a realidade com integram um ciclo constituído “Saber o Sabor do
despojamento, de resgatar uma por desenhos obtidos por via da Mundo”, in CALADO,
visão de sobriedade a partir manipulação de fogo sobre papel. Rafael Salinas;
de elementos naturais, numa As obras revelam variações MONTEIRO, Eglantina;
OLIVEIRA, Maria José;
economia de meios e de possi- na composição, de acordo com PORFÍRIO, José Luís,
bilidades, mote para reflexões a escala da inscrição da chama Dimensões da vida da
sobre “os profundos mistérios sobre o papel, condicionando terra, Lisboa: MNAA –
das coisas essenciais”. A lingua- e revelando a metodologia do Museu Nacional de Arte
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gem artística por si desenvolvida processo artístico. Integrando-se Antiga, 1999, pp. 8-9.
deriva de uma atitude assente nesse ciclo, os três desenhos da 3. CALADO, Rafael Salinas,
na gestualidade manual, a maior coleção denunciam a memória “A verdade cerâmica
parte das vezes criando discursos do fogo inscrito no suporte. São do criador e do objeto
metamórficos, numa atitude percetíveis o papel queimado criado”, in CALADO,
holística em relação à sua visão e as gradações cromáticas que Rafael Salinas;
MONTEIRO, Eglantina;
do cosmos. a ação da chama provocou até OLIVEIRA, Maria José;
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à sua premeditada extinção. PORFÍRIO, José Luís,
É também observável o controlo Dimensões da vida da
da mão da artista, que oferece terra, Lisboa: MNAA –
ao observador composições com Museu Nacional de Arte
Antiga, 1999, p. 11.
uma cadência regular de carácter
minimal, simulando labaredas 4. Duarte, Adelaide,
de distintas intensidades. Maria “Tubolagem. Maria
José Oliveira revela, assim, José Oliveira”, in
domínio no desenho a fogo Galeria Graça Brandão,
galeriagracabrandao.
e no controlo da durabilidade pt/portfolio_page/
da chama acesa, sujeitando-se tubolagem-maria-jose-
à imprevisibilidade e à fragilidade oliveira/. Consultado
da elementar matéria. em 12.11.2024.

