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Xana
       (Lisboa, 1959)                                                                                         178



       Xana explora as possibilidades gráficas estruturais e cromáticas não distantes
       da op art e da arte cinética. Cria diferentes leituras e enuncia formalismos geo-
       métricos depurados observados no trabalho experimental que realiza em torno
       das variações cromáticas e volumétricas, articulando as noções de escala e de
       proporção. O ecletismo das referências óticas e psicadélicas do seu trabalho afi-
       guram-se como reminiscências da pop art e observam-se no modo subtil como
       concebe as formas, como emprega a cor  e como trabalha as texturas. Reflete,
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       também, uma apropriação do discurso formal das shaped canvas , seja pelo fi-
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       gurativismo da bad painting, seja pelo abstracionismo da pattern painting. Mani-
       pulando os constrangimentos da pintura e da escultura, Xana desenvolve uma
       pesquisa onde problematiza os médiuns através da volumetria e da cor, estabele-
       cendo um certo “refluxo táctil na percepção visual”.          3



       Na coleção preservam-se cinco    A obra Lar Doce Lar – Quarto (2),   plana que proporciona um grande
       trabalhos de Xana realizados     de 1994, foi apresentada na      dinamismo. As cores utilizadas
       na primeira metade da década     exposição com o mesmo título,    estabelecem relações fracturantes
       de 1990, que foram adquiridos    Lar Doce Lar, realizada no CCB   entre si pelo emprego saturado
       ao artista em 1998. Em Sem Título,   – Centro Cultural de Belém, no   das tintas acrílicas amarela
       de 1991-1992, é percetível o dina-  contexto de Lisboa’94 – Capital   e lilás, delineando planos pintados
       mismo que o artista alcança na   Europeia da Cultura, em 1994.    de negro que se articulam por
       composição ao criar um padrão    A instalação de Xana simulava,    força de uma rigorosa planimetria
       regular composto por listas ondu-  de modo autorreferencial,      reminiscente daquela que as
       lantes de leitura ambígua. O ele-  a atmosfera e o caos do espaço   plantas e os alçados arquitetónicos
       mento circular negro, organizado   doméstico. Xana coloca enormes   tradicionalmente apresentavam.
       de modo concêntrico, pontilhado   painéis delimitados por contornos    Em proximidade aos valores
       por pequenos círculos, e situado   geometrizados e abstratos, cujo   da pop art e da op art, mas sem
       ao centro da composição, sobre-  tratamento textural e relação com   os encerrar, Xana propõe a repre-
       põe-se à cadência estrutural de   objetos de plástico de produção    sentação do espaço através
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       listas pintadas com têmpera azul   massificada criava impressões   da sua problematização.
       e verde sobre a textura alva do   de dinamismo no contexto expo-
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       papel. Em Sem Título, de 1991-1992,   sitivo. A instalação distribuía-se   Em Flor Bela I, de 1994, Xana orienta
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                                        pelo espaço de modo saturado,
       Xana propõe uma composição       seguindo os preceitos da com-    e sobre a superfície do papel azul
       onde os padrões geometrizados    partimentalização dos espaços    inscreve furações, qual picotado,
       se organizam de modo irregular,   domésticos, afetando a cada     que delimitam um corpo geo-
       mas com proporcionalidade.       local uma temática doméstica     métrico irregular, permitindo
       A estrutura apresenta elementos   diferente. Ainda que se tratasse   observar para lá do suporte.
       equivalentes, tanto proporcional    de uma exposição impactante,    Observam-se, ainda, pinceladas
       quanto cromaticamente, e         com um carácter holístico,       de tinta branca que sugerem
       a sua disposição cria equilíbrio    também era possível fruir cada   a existência de raízes fasciculadas
       e harmonia visuais. Sobre um     um dos elementos de modo         que alimentam aquela flor.
       plano branco, limitado por outro   autónomo.  Na senda do corpo de   Da mesma série, Flor Bela IV, de
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       azul, e ainda outro de cor magenta,   trabalho de Frank Stella, o artista    1994, organizada na vertical, Xana
       inscreve-se um elemento qua-     executa Lar Doce Lar – Quarto (2),    apresenta o mesmo processo.
       drático negro preenchido de cor   delimitando o contorno de modo   No plano vermelho desenha uma
       amarela. Também sobressai na     irregular para construir um dis-  flor e, a seu lado, quatro colunas
       pintura pequenos círculos dentro    curso arquitetónico, com o qual   e uma linha horizontal picotadas
       daqueles planos cromáticos,      sugere a ideia de mudança ao     e distribuídas de modo regular.
       com as mesmas cores num claro    nível do espaço. O painel de MDF   Ambos os trabalhos sugerem uma
       contraste, criando dinamismo     organiza-se de modo geométrico,   mecanização no processo da sua
       na composição plana.             por via da aplicação cromática   obtenção, de matriz tecnológica.
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