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Martinha Maia
(São Mamede de Coronado, 1976) 102
A artista Martinha Maia manipula com habilidade o desenho e a performance para
trabalhar temas no domínio do corpo e da mente, promovendo o seu registo
e documentação por via do vídeo e da instalação.
Em 2004, Martinha Maia apresenta Observava-se depois o movimento Notas
Fatos na Galeria Municipal inverso, e o fato colapsava
da Mitra, em Lisboa. Trata-se de gradualmente, permitindo que 1. NICOLAU, Ricardo, “Fatos
um corpo de trabalho decorrente a artista prosseguisse com de Martinha Maia”,
in História da Coleção_
de outro iniciado no contexto das a performance. Martinha Maia Incorporações_ Propostas
disciplinas de desenho e expressão documentou a ação, e Fato II de Aquisição_ CAC
corporal, quando cursava Artes metamorfoseou-se numa instala- Compras 2004_Separador
Plásticas na ESAD CR – Escola ção que a artista arquivou, recor- N.º 19, 2004.
Superior de Artes e Design, em rendo ao desenho e à fotografia 2. “O ‘Fantasma da
2000. Em Fatos, a artista percorria e a dispositivos que registaram Liberdade’ em duas
a instalação que ocupava o espaço, a performance em vídeo. O dese- peças da Fundação
ativando, por via da performance, nho traçado com segurança de- Altice”, in Entre Espaços
as peças escultóricas que conce- monstra frontalmente as várias #2.CFA2024. Coimbra:
Anozero, 2024.
bera como invólucros orgânicos. etapas da ativação da peça e a
Estes, executados em diferentes fotografia, captada lateralmente
materiais, texturas e opacidades, a ¾, mostra a figura orientada
podem ser lidos como reminis- à esquerda, envergando o fato Bibliografia
cências dos exoesqueletos suspenso em toda a sua extensão.
dos quelónios ou dos casulos Verifica-se, com a visualização COSTA, Jorge da,
de certos insetos, símbolos do vídeo, que o público assiste 45 Obras da Coleção
de metamorfose. Executando de um ponto de vista descendente, de Arte Contemporânea
da Portugal Telecom. Lisboa:
a performance ao intervir nas dez em silêncio, escutando em Fundação PT, 2013.
peças polimorfas que constituíam simultâneo a cadência rítmica
a instalação, Martinha Maia do sistema mecânico, aspeto “O ‘Fantasma da Liberdade’
explorou as possibilidades que contribuía para fortalecer em duas peças da
de adaptabilidade e despersona- o dramatismo da ação. Fundação Altice”, in Entre
Espaços #2.CFA2024.
lização da anatomia do corpo Coimbra: Anozero, 2024.
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e as suas limitações. Articulando Em Sem Título (I Série), de 2004,
a dicotomia traduzida entre expo- Martinha Maia concebe um ciclo Martinha Maia,
sição e ocultação, interioridade e de sete desenhos elaborados com martinhamaia.com.
exterioridade, a artista convidava caneta preta, aplicando na super- Consultado em 4.1.2025.
à reflexão não só sobre a espa- fície do papel a delicada memória
cialidade, mas também sobre os gestual de um certo automatismo
paradoxos da libertação. Fato II, linear, uma vez que é consciente o
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de 2004, foi adquirido à Galeria seu intuito. Adquiridos à GIEFARTE,
Vera Cortês, em 2004. Trata-se em 2004, os desenhos evidenciam
de uma prótese de feltro preto a aplicação do material negro de
e desenho tubular, ativado pela modo repetido, originadores de
artista ao vesti-lo, auxiliada por sucessivas camadas formalmente
um assistente. Içando-o a partir orgânicas com diferentes densi-
do seu interior por meio de um dades e distâncias percetivas. Vi-
sistema de roldanas, Martinha sualmente, as manchas traçadas,
Maia, de maillot, iniciava uma leve e airosamente, são citação
coreografia oculta. Imobilizada, do confronto entre a vacuidade
a artista suspendia-o e, alcan- e abundância obtidas através do
çando a sua máxima extensão, desenho automático, prevendo,
a estrutura desvendava as suas de certo modo, o interesse que
pernas desnudas e os pés des- Martinha Maia apresentará pela
calços assentes no pavimento. dimensão do barroco.

