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Álvaro Lapa
       (Évora, 1939 / Porto, 2006)                                                                             98



       Artista relevante no panorama artístico português, Álvaro Lapa criou de modo
       autodidático uma singular linguagem expressiva. Influenciado pela “moderni-
       dade duplamente herdeira de angústia romântico-expressionista e da revolta
       surrealista” ,  Lapa  não  apenas  a  subverteu,  como  através  dela  alcançou  um
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       vocabulário abstracionista oriundo da neo-figuração e do informalismo. Álvaro
       Lapa cria um sistema de signos enigmáticos, de influência literária e filosófica,
       e promove temas de notória coerência compositiva traduzidos pelo desenvolvi-
       mento de ciclos narrativos pintados com esmalte e tinta acrílica sobre platex .
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       Existem na coleção três obras de diferentes séries, realizadas entre as décadas
       de 1970 e de 1980, a partir das quais é possível aferir o carácter simbólico e visual
       da sua prática artística.





       Álvaro Lapa apresenta a exposição    o pintor inscreve Que Horas são   seja, Álvaro Lapa evoca através
       Que horas são Que horas na Galeria    Que Horas à esquerda, e Descrição     do título o espírito de evasão
       Buccholz em Lisboa, em 1975,     de um Abismo à direita. Subjaz    artística e o distanciamento a que
       adicionando o subtítulo Exposição   a essas duas inscrições uma    se sujeitou. Plasticamente, com
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       de Literatura . Mais tarde, em 1989,   banda branca de menor espessura,    Gauguin, Álvaro Lapa procede em
       apresenta-a na Galeria Valentim   onde se lê “A visão de aqui. Ora   continuidade na reminiscência da
       de Carvalho, também em Lisboa.    aqui está. / Onde pernoitas cansas    série Milarepa, iniciada por volta
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       Esta série de aparente continuidade     recuperas / e pronto, quando “te   de 1970, e que resulta da recupe-
       materializava os domínios da lite-  vês” é tudo”. Estas palavras suge-  ração de uma silhueta informe de
       ratura e da filosofia na sua obra,   rem a interioridade da própria    negras figuras amorfas, símbolo
       com uma subliminar menção ao     imagem, uma atmosfera de alhea-  de rutura no espaço pictórico.
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       regime político que vigorava em   mento perante um isolamento     Utilizando um signo reconhecível
       Portugal. Neste corpo de trabalho,   forçado, e aproximam-se de um   enquanto marca autoral, o artista
       Álvaro Lapa referencia um período   estado de vigília. O seu registo   metamorfoseia-o continuada-
       em que visitava o seu pai na prisão.   coloca o observador perante uma   mente, transformando-o num
       É por isso usual identificar-se    situação emocional específica    elemento de contaminação que
       a representação de grelhas,      ao articular pintura e poesia. 6  prolifera de imagem para imagem,
       ou grades, nas composições                                        e cuja mancha se torna imprevisível.
       pictóricas da época. Através     Gauguin, de 1979, insere-se num   A obra, adquirida na Galeria Hugo
       de uma articulação entre pintura   corpo de trabalho homónimo,    Lapa, em Lisboa, em 1997, apre-
       e escrita, o pintor subverte-as   em pintura e desenho, cuja de-  senta uma composição derivada
       plasticamente, integrando-as,    nominação partiu de um artigo    da proliferação entrópica dessa
       de modo simbólico, por entre     publicado na Colóquio-Artes      mancha que agora ocupa a maior
       elementos cromáticos e textuais,   em junho de 1978 por Fernando   parte da superfície. A anterior
       gerando “imagens nos limites     Pernes. O crítico de arte declara   vacuidade é preenchida por uma
       da inteligibilidade”.  Que horas   que o artista estaria a recuperar   densa mancha negra de contornos
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       são que horas – Descrição de um   o espírito da obra pictórica de   orgânicos que encerra outra,
       abismo, de 1975, integra uma série   Paul Gauguin (1848-1903).  Álvaro   anulando a noção paisagística
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       de dezasseis pinturas. Na com-   Lapa assume aquele título nesta   de horizontalidade.
       posição observam-se sugestões    obra, e em outras do mesmo ciclo,
       de aberturas seladas com grades   revendo similitudes no percurso   Campéstico – Paisagens e Interiores
       num plano pintado de azul denso   de ambos: tal como Álvaro Lapa   é uma série realizada entre 1982
       e, a acompanhar a horizontalidade   abandona Évora, noutra escala,   e 2004. Representa uma linha
       da representação, figura uma banda   Paul Gauguin abandona Paris,   poética no modo hermético como
       encarnada e centrada, na qual    evadindo-se do Ocidente. Ou      Álvaro Lapa a concebe. É caracte-
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