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Manuel João Vieira
       (Lisboa, 1962)                                                                                          94



       Manuel João Vieira encontrou um território de evasão da realidade no desenho
       e na pintura. O artista cria imagens cenográficas e delirantes, com certa fluidez
       e automatismo. Visualmente, as obras evocam um discurso acidentado, de deva-
       neio, mas, em simultâneo, intuitivo e racional.  Membro do movimento Homeos-
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       tético, observa-se, no seu trabalho, uma pulsão figurativa onde predominam os
       temas clássicos, de inspiração renascentista, maneirista, barroca e simbolista,
       uma vez que o artista prefere, com reconhecida ironia, “o ornamento ao crime”.                2





       As suas composições apresentam   platónico organizado entre eikasia        Notas
       espaços inóspitos e quiméricos,   e dianoia, e pístis e noesis, ou seja,
       paisagens habitadas por figuras   entre sensibilidade e ideologia.         1. Casa. Manuel Vieira.
       de efabulação grotesca, de inspi-                                           Organização de Manuel
                                                                                   João Vieira, Pedro Cabral
       ração histórica e mitológica, e de   Há outras duas obras na coleção,       Santo e D. André de
       ambiente fantasioso. A comuni-   15 variações na paisagem (do               Quiroga, Lisboa: Câmara
       cabilidade anacrónica, existente   melhorzinho que anda para aí), de        Municipal de Lisboa /
       entre morfologias indissociáveis   1997, e Pastelaria Arcádia, de 1999.     Galerias Municipais, 2013.
       espacial e formalmente, é ofere-  A primeira, doada pelo artista,          2. Idem, p. 9.
       cida pela criação de imagens alu-  é um desenho de uma paisagem
       cinatórias de carácter narrativo,    com variações de imagens refe-
       sujeitas à lógica temática e     rentes a passagens de alguns dos
       representativa, e à interpretação    Cantos d’Os Lusíadas, de Luís Vaz     Bibliografia
       do observador, também sob        de Camões. O título ironiza, dado
       influência da banda desenhada.   que os esboços são parte inte-            Continentes: V Exposição
                                        grante do processo de criação e           Homoestética, Lisboa:
       Paisagem N.º 28, de 1997, é um   não o resultado em si. A segunda,         S.N.B.A., 1986.
       desenho de grande escala, onde    Pastelaria Arcádia, de 1999, foi         Manuel & João Vieira.
       a imagem representa uma          adquirida ao artista e representa         Textos do Marquês
       bucólica paisagem inscrita num   uma paisagem bucólica, de cariz           de Salinas, Visconde de
       emolduramento oval, segundo a    naturalista. A composição, que            Athaíde e Pedro Proença,
       tradição renascentista. A Paisagem    não perde o sentido humorístico,     Tavira: Casa das Artes
       Socrática, de 1997, referencia    é inspirada na iconografia clássica,     de Tavira, 2000.
       a época do filósofo da Grécia    um território idílico descrito nas        Manuel Vieira como
       Antiga. Manuel João Vieira       Bucólicas, por Virgílio, a partir         Orgasmo Carlos como
       recorre à representação descritiva    da mitologia da Grécia Antiga        Manuel Vieira: Mão esquerda
       da dimensão do sofismo, articu-  e amiúde interpretado a partir            contra mão direita. Texto
       lando epicurismo e estoicismo.   do renascimento.                          de João Granés, Lisboa:
                                                                                  Galeria Valbom, 2011.
       Imagem de inspiração naturalista,
       desenhada com tinta-da-china                                               MARTO, Bárbara (Org.)
       e aguada de sépia sobre papel,                                             Artistas Portugueses
       é composta por dois ermos com                                              na Coleção da Fundação de
       diferentes figuras que dialogam                                            Serralves. Porto: Fundação
                                                                                  de Serralves, 2009
       com uma representação da
       Alegoria da Caverna, do Livro VII                                          VIEIRA, Manuel João;
       d’A República de Platão, discípulo                                         CABRAL, Pedro; QUIROGA,
       de Sócrates. O artista, relatando                                          D. André (Orgs.), Casa.
       a parábola do autor clássico, cria                                         Manuel Vieira. Lisboa:
                                                                                  Câmara Municipal
       um confronto entre consciência                                             de Lisboa / Galerias
       e realidade, representando-a                                               Municipais, 2013.
       mediante a colocação de três
       figuras dispersas na composição,
       que traduzem o pensamento
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