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91 (Porto, 1929 / Lisboa, 2015) Ana Hatherly
Ana Hatherly trabalha de modo singular o desenho e a pintura, a escrita e a poe -
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sia, desde os anos 1960. Na sua práxis artística sobressai a representação visual
da escrita, a partir de uma caligrafia abstrata e da poesia visual. Investigando
intensivamente a questão sígnica e caligráfica, ancestral e atual, Ana Hatherly
debruça-se sobre as inscrições espontâneas de símbolos e pensamentos.
Também o graffiti no pós-25 Neograffiti, de 2002, sugere um Bibliografia
de Abril de 1974, juntamente com recuperar da prática artística que
os cartazes de propaganda polí- Ana Hatherly concebia durante GASTÃO, Ana Marques,
tica e os murais revolucionários a década de 1970. A sobreposição “Entrevista com Ana
que se propagaram, exerceram de elementos de carácter pro- Hatherly”, in O Falar
dos Poetas, Porto:
uma forte influência na artista pagandístico e de mensagens Afrontamento, 2011.
com a sua explosão cromática. grafitadas sobre murais, símbolo
de um movimento coletivo, HATHERLY, Ana, Ana
Em Sem Título, de 1972, a super- encontra-se citada no título da Hatherly. Interfaces do
fície pictórica é coberta por uma obra, em reminiscência daquele Olhar: Uma Antologia
Crítica, uma Antologia
camada de negro à qual a artista período revolucionário. Colocando Poética, Lisboa: Roma
sobrepõe de modo irregular e o corpo à disposição da superfície Editora, 2004.
abstrato largas pinceladas de pictórica, Ana Hatherly recorre
tinta branca. A pintura apresenta à energia corporal inerente ao PINHARANDA, João, Ana
marcas de uma agilidade gestual gestualismo para conceber com Hatherly: A Mão Inteligente,
Lisboa, 2003.
que denunciam espontaneidade spray negro um símbolo abstrato,
no movimento. A representação um caractere indecifrável, um ROSENGARTEN, Ruth,
pictural articula luz e sombra, rosto anunciado. Não distante “Queda Livre”, in Arte
colocando em confronto quietude morfologicamente da película Ibérica, N.º 4, maio de 2000.
e dinamismo, formas que se cinematográfica, o elemento
entrelaçam numa dança infinita. desenhado sobre o papel é tes-
A obra foi adquirida na Galeria temunho da relação entre poesia
Presença, no Porto, em 1998. e imagem, que Ana Hatherly
tratou a partir da sua identidade
e memória.

