Page 88 - Fundação MEO - Coleção de Arte Contemporânea
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Alexandre Estrela
(Lisboa, 1971) 88
Alexandre Estrela distingue-se pelo modo como domina os dispositivos a que
recorre para interpelar o espectador enquanto recetor, desde meados da década
de 1990. É também notável o modo enigmático como apresenta temas e referências
por via do vídeo e da instalação. Através de assuntos como, por exemplo, a per-
ceção e a ficção científica, a cultura popular e o cinema, o artista revela interesse
pelas práticas concetuais e experimentais decisivas na formulação de uma lin-
guagem heterodoxa que articula as artes visuais e o cinema experimental. Colo-
cando em diálogo o estatismo, a cinética e os efeitos visuais, Alexandre Estrela
obtém vastas resoluções sobre o valor da imagem ao suspender o seu significado
por meio de inesperadas associações.
Interessa-lhe “a experiência colocados lado a lado. Inicialmente, Bibliografia
sinestésica de imersão” que a imagem encontra-se estática
1
a imagem proporciona cogniti- até ao aparecimento de duas “Alexandre Estrela no
vamente. Alterando a perceção luzes lazer, indicado sonoramente, Museu do Chiado”, in Arte
espacial do local onde a obra e utilizado também para indicar y Parte, Direção Miguel
Fernandez Cid, N. 64,
se encontra, exige do espetador a sua fixação. Essas duas luzes setembro de 2006, p. 132.
o desenvolvimento da capacidade laser que representam o olhar
de leitura de códigos que provo- percorrem em sincronia, de Alexandre Estrela:
cam um estranhamento liminar, modo mecânico e coreografado, Um Homem entre Quatro
mas em cuja compreensão habita as duas imagens dos detetores Paredes, Coordenação
Editorial de Júlia Ayerbe,
o segredo. de incêndio. Ambas as luzes São Paulo: Pinacoteca
desenham um esquema repetido do Estado, 2013.
Lazy Eye, de 1998, simula o movi- enquanto realizam o varrimento
mento sacádico, cinesia que dos objetos, até que uma delas ESTRELA, Alexandre;
o olho realiza instantaneamente se atrasa, origem da intitulação CABO, Ricardo Matos;
GAMITO, Maria João;
quando o cérebro identifica da obra. Esta instabilidade, NICOLAU, Ricardo;
novos volumes. Obedecendo sugerida preguiçosamente REEVES, Daragh;
a um esquema cerebral predeter- pelo olhar, cria “espaço para FERNANDES, Alexandre
minado, o olho familiariza-se com a especulação sobre a perceção Estrela: Meio Concreto.
o novo volume, simplificando-o de um objeto artístico”. 3 João; Porto: Fundação
de Serralves, 2013.
de modo elementar. Para cada
volume real, imutável, existe LAPA, Pedro, Novo Milénio,
uma representação abstrata que Notas Signos de Transição in Arte
varia incessantemente ainda que Portugués Contemporáneo/
colocada em confronto com esse 1. PICCOLI, Valéria, Argumentos de Futuro:
Colección MEIAC – Museo
referente. Para conceber a ins- “Entrevista a Alexandre Extremeño e Iberoamericano
talação-vídeo, Alexandre Estrela Estrela”, in Alexandre de Arte Contemporáneo.
Estrela: Um Homem
filma um detetor de incêndio entre Quatro Paredes, Coordenação de María
a ser reconhecido por uma luz Coordenação Editorial José Pérez Jiménez e Elsa
laser, duplicando-o de modo a de Júlia Ayerbe, São Ferreira, Edição: Caja San
Fernando, MEIAC, 2001,
inculcar-lhes “o desempenho dos Paulo: Pinacoteca pp. 164-215.
olhos no exercício percetivo do do Estado, 2013, p. 5.
reconhecimento”. De seguida, 2. ESTRELA, Alexandre,
2
a imagem estereoscópica que “Memória Descritiva
simula o movimento sacádico de Lazy Eye”, s/d., in
do olhar é projetada sobre os dois Rede Virtual da Coleção
volumes circulares de plástico de Arte Contemporânea
da Fundação MEO.
branco opaco, sem textura, seme-
lhantes aos detetores de incêndio, 3. Idem.

