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125 (Lisboa, 1949) Vítor Pomar
A obra de Vítor Pomar situa-se entre as dimensões do abstracionismo e do ex-
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pressionismo, e do encontro entre ambas o artista cria uma linguagem autoral
pela qual explora os aspetos do dinamismo dos corpos e da refração da luz e,
consequentemente, da cor. A curiosidade pelas especificidades da luz e da cor
provêm da influência que as correntes de pensamento orientais como o budismo
exerceram sobre si . Vítor Pomar, à semelhança de outros artistas da sua geração,
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tirou partido de diversos campos disciplinares, explorando desde a pintura à
fotografia e ao vídeo, passando pela escultura e a joalharia.
Após uma interrupção de 15 anos Le plus profond c’est la peau, nando-os com a corporalidade
por motivos de cariz espiritual, de 1973-1998, insere-se no corpo do artista e depois do obser-
Vítor Pomar apresenta um de trabalho apresentado nesta vador. As imagens captadas
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importante corpo de trabalho exposição, e surge de uma imagem articulam-se entre si pelo ritmo
no Centro de Arte Moderna captada no seu ateliê e revelada de convergência que a câmara
da Fundação Calouste Gulbenkian, em 1973 , que depois foi digitali- estabelece com os volumes,
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em 1998. De seu título, Vítor Pomar: zada e impressa a jato sobre passando de um plano abrangente
Fotografia 1970-1974, teve poliéster, em 1998. A obra oferece para um plano de detalhe, numa
a curadoria de Jorge Molder. a possibilidade de vislumbrar uma escala que abstratiza a realidade
A exposição reuniu paisagens, parte do ateliê do artista e de representada. Vítor Pomar intitula
ambientes, detalhes, impressões presenciar como repousam o tríptico com uma frase retirada
que registou em fotografia, entre os volumes acumulados no espaço. de um excerto de um texto de
1970 e 1974, depois de se exilar As imagens obtidas a partir Paul Valéry, reveladora de uma
nos Países Baixos e viajar para de fotografias a preto e branco visão particular do mundo e do
o México. O resultado foi um apresentam um tratamento carácter espiritual, implicando
conjunto de séries fotográficas, dicotómico que suscita quietude princípios de subjetividade
organizado quase exclusivamente e contemplação pelas caracterís- e um modo a existir em estado
em trípticos ou polípticos e, nes- ticas da malha de poliéster, baça de ascese. O ateliê, enquanto
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sa ocasião, sujeito a um processo e opaca. A prova original organiza- espaço, situa-se nesse limiar entre
que implicou digitalização, am- -se horizontalmente em três pai- a interioridade e a exterioridade,
pliação e impressão da fotografia néis verticais. A sua constituição qual tensão pulsional. 7
sobre tela. Apresentando esses terá obedecido a um processo
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registos fotográficos junto assente no registo fotográfico
daqueles sobre os quais conside- serial do ambiente e dessa série
rou importante refletir, o artista fotográfica, foram selecionadas
dota-os de novas características, e editadas imagens depois
ainda que de natureza técnica, na montadas segundo as técnicas
senda de um exercício de memó- da répétition e stoppage, recursi-
ria e de revisitação do passado. vidade habitual pela aproximação
da linguagem da sua prática
artística ao pensamento cinema-
tográfico. Assim, em 1998, aquela
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prova foi sujeita pelo artista
a uma ressignificação. Os princí-
pios orientadores, os de escala
e de constrangimento, depois da
seleção e edição, foram obtidos
através da experimentação tec-
nológica. Vítor Pomar domina
a noção de escala pelo modo como
organiza o interior do espaço
e a dimensão do suporte, relacio-

