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Pedro Proença
(Lubango, 1962) 128
Pedro Proença convoca na sua obra artística os domínios da literatura, da filoso-
fia e da história de arte, dimensões que resultam de uma pesquisa continuada
de fontes anacrónicas e cuja assimilação se verte num ecletismo em constante
mutação. Cedo entendeu que gostava de “canibalizar” influências, justificando
assim a inconstância estilística, a narrativa e a ansiedade de diferir da norma. 1
Ao ingressar na E.S.B.A.L – “gramatológico” nos signos palimpsestos, sobre os quais
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Escola Superior de Belas-Artes elementares, o graffiti, mostrou comenta de forma críptica
de Lisboa (1981-1986), no primei- interesse pelas correntes expres- e cómica, e homenageando
ro ano escreve o que designou sionistas abstratas e, em particu- figuras artísticas do século XX,
por manifestos “neo-canibais” . lar, pela obra de Picabia, Picasso aproxima Krishna a Ad Reinhardt,
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Neles, denotam-se referências e Dubuffet. qual reencarnação estética.
evocativas do corpus artístico
do dadaísmo, do minimalismo e Na sua obra recorre com frequência De Pedro Proença também se
da arte concetual. O modernismo ao desenho aparentemente naïf preserva na coleção os desenhos
apresentava-se-lhe paradoxal, e de vocação narrativa non-sense The Dangerous Plurality of Things
e a pop art, mais próxima dos constituída por figuras antropomór- (rereading again again and again)
anos de 1980 do que as anteriores ficas, zoomórficas e vegetalistas e Unnacceptable Truth, ambos
correntes, significava uma ce- de inspiração ornamental. Essa de 1994. As duas obras integram
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dência aos valores da sociedade figuração de cariz metamórfico o ciclo À mesa, com certeza, de
de consumo. A postura crítica que apresenta composições com 1994, que problematizava ética
adotará observa-se logo em 1982, reminiscências da mitologia e filosoficamente a relação entre
quando, com Pedro Portugal, cria e da poesia visual, elaboradas comer e ser comido, e colocava
Homoestética, a revista fundadora através da fragmentação humorís- o povo, o ornamento e o prazer
do movimento homónimo. Este foi tica e variedade de fontes visuais em confronto com uma atitude
entendido como um “tetraneto” e literárias, as quais permitem múl- modernista, ascética e elitista
dos dadaísmos e, nele, o hedo- tiplas possibilidades de leitura. 6 declinante. Ambos os desenhos
nismo foi uma das suas maiores recuperam a tradição do uso
expressões, em antítese com as Pertencente a uma fase inicial das marginálias presentes nas
ideias do saudosismo que o fado do seu percurso artístico, em iluminuras medievais ou nos
por exemplo representa. Um dos Black is Black, de 1991, Pedro groteschi em Roma. Os desenhos
enunciados do movimento era Proença cita a influência que traduzem a ideia do continuum da
recriar e demonstrar a atualidade a obra de Ad Reinhardt sobre artephysis que convoca a seme-
do conceito de paraíso. É perce- si exerceu, principalmente entre lhança entre natureza e cultura,
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tível o pensamento que orientou 1989 e 1994. Comprado direta- e a articulação entre o dialoguismo
Pedro Proença: rejeitando o mente ao artista em 1999, trata-se de Bakhtine e as incursões
cânone do classicismo e acade- de um conjunto de dezoito de Derrida sobre o Quadrum. 8
micismo do ocidente, opta por desenhos negros, compos tos por
uma alternativa notoriamente planos de geometria quadrática The Dangerous Plurality of Things
primitiva e antagónica. Fá-lo, por centrados na superfície do papel, (rereading again again and again),
um lado, pela influência do antigo feitos da aplicação de matéria em de 1994, é um desenho a tinta-da-
próximo oriente e, por outro, para diferentes camadas. Sob cada um -china sobre papel, orientado por
ir ao encontro da erudição e do dos desenhos, Pedro Proença valores como a alegoria, a erudição
folclore de cariz popular oriundos inscreve expressões humorísticas e a comicidade. A figura híbrida
da tradição dos povos do que resgatam a iconoclastia é decorada com ornamentos de
Mediterrâneo. Aproximou-se do Quadrado Negro de Malevich, diferentes cronologias. Na cabeça
dos valores da pintura paleocristã de 1915, do modernismo e da encontra-se uma construção que
e bizantina, deu atenção às ilu- antropologia de Jack Godoy, alude ao tema heideggeriano
minuras e ao maneirismo profícuo que depois articula nos pequenos da edificação. Na gola do traje que
em melancolias e excentricidades, planos negros “sujos, aguarelados, enverga percebe-se em grego
observou o impressionismo, ao sem escala” . Pedro Proença a inscrição “filantropo”. O busto
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qual acrescentou um interesse classifica-os como notas pessoais, é suportado por um elemento

