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161 (Viseu, 1962) Pedro Tudela
Pedro Tudela é formado em pintura pela Escola Superior de Belas-Artes do Porto,
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e produz um trabalho que se caracteriza pela diversidade de meios utilizados,
a performance, a instalação e a cenografia, áreas que cruza com a música.
Na década de 1990, no início e uma navalha de barbeiro aberta Notas
do seu percurso artístico, Pedro e manchada de sangue. A escala
Tudela ilustra parte de Crimes pronunciada do objeto que ocupa 1. AUB, Max, Crimes
Exemplares, escrito por Max Aub a zona inferior da composição, Exemplares, Lisboa:
em 1957, obra com a qual venceu e a mancha ocre que ocupa Antígona, 2021.
o Gran Prix de l’Humour Noir, em o desenho, remetem para o crime 2. Albuquerque Mendes:
Paris, em 1981. Este livro reúne descrito, conforme indicado O Martírio de
oitenta e sete relatos de homicidas por uma inscrição manuscrita S. Bartolomeu em
confessos, descrevendo os que encabeça, ironicamente, Trancoso & Pedro Tudela:
crimes cometidos. Pedro Tudela o desenho. Em Desenho para Max 10 Desenhos para ‘Crimes
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Exemplares’ de Max Aub,
organiza um ciclo que retrata Aub (16), de 1998, Pedro Tudela Porto: Galeria da
dez desses tétricos relatos, elabora no centro da superfície Restauração, 1998.
denominado 10 Desenhos para do papel um coração que sugere
Crimes Exemplares de Max Aub, um crime passional. As manchas 3. NEVES, Eduarda,
e que apresenta na Galeria da aplicadas na composição, a tinta “A unidade individual e
os corpos diversificados”,
Restauração, no Porto, em 1998. 2 que escorre pelo papel, a impres- in Bienal da Maia: Arte
Dessa série, quatro desenhos são de uma mão, assim como Jovem – Maia ’97, Maia:
foram adquiridos para a coleção a simulação dos salpicos causa- Câmara Municipal da
à Galeria Canvas & Companhia, dos pelo manuseamento de uma Maia – Pelouro da Cultura:
no Porto, em agosto de 1998. lâmina, reforçam a atmosfera Maia, 1997, p. 10.
Observando o dépliant da criminosa relatada no décimo
exposição, verifica-se que sexto momento de Crimes
a escolha recaiu sobre as obras Exemplares. Desenho para Max
aí representadas a preto e branco, Aub (53), de 1998, representa uma
inscritas com a numeração que boca fulva de dentes cerrados,
identifica o crime a que cada atravessada por um garfo, e uma
desenho corresponde. Ilustrando faca colocada na vertical que se
a obra de Max Aub, Pedro Tudela dissipa na margem superior do
interpreta cada relato resgatando desenho. Os talheres são atribu-
a experiência memoriográfica, tos de domesticidade que denun-
ficcional ou votiva, marcada pelo ciam o espírito do delito violento
carácter criminal “ideológico- descrito no relato, reforçado pelo
-afetivo, ou pelo exacerbamento recurso a manchas e impressões
altruísta”. Concebidos com de cromatismo ocre e cinza
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uma técnica mista, assente na sugestivos de uma atmosfera
utilização de aguada, de barra de sombria. Em Desenho para Max
óleo, e grafite, os desenhos em Aub (62), de 1998, o artista inscreve
papel surgem intervencionados um biberon que ao invés de leite
pela gestualidade afim da action é preenchido por um líquido
painting, que reforça o carácter encarnado, colocado acima
sangrento, violento, e a iniquidade de um gradeamento que ocupa
dos crimes relatados por Max a zona inferior da composição.
Aub, pese embora a candura À semelhança dos trabalhos
das confissões descritas. anteriores, também neste Pedro
Tudela simula a memória do sangue
Desenho para Max Aub (7), vertido criminosamente, agora
de 1998, apresenta uma cabeça tinta que escorre pelo papel.
nua, cortada pelo pescoço, cuja
nuca se encontra saturada,

