Page 30 - Fundação MEO - Coleção de Arte Contemporânea
P. 30

Helena Almeida
       (Lisboa, 1934 / Sintra, 2018)                                                                           30



       Helena Almeida é uma artista com uma obra relevante no panorama artístico
       nacional e internacional. Começou o seu percurso pela pintura nos anos 1960. Foi
                                                                                                      -
       bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian, em Paris, em 1964, estadia que lhe per
       mitiu aproximar-se dos princípios do concetualismo vigente. Helena Almeida

       investigou os valores do espaço e da representação de modo gradual e consistente,
       através de uma visão concetual e política do corpo, da feminilidade e da mulher.
       Adotando uma atitude disruptiva face às práticas artísticas da época, inverte ati-
       vamente os campos da pintura e do desenho, recorrendo pioneiramente à foto-
       grafia, à performance e ao vídeo. Através da sua obra, Helena Almeida convida
       a refletir sobre as contingências da pintura e da espacialidade, mostrando como
       as modifica, e como delas se evade.       1





       A partir da performance, Helena   depurada. Potenciam não só      ritualização cada vez mais elabo-
       Almeida encena as suas repre-    as posições e expressões por     rada da performance, aplicando
       sentações. Coloca-se de modo     si adotadas, como também         a tinta sobre a primitiva imagem
       estudado defronte da câmara      o espaço envolvente, enfatizando   de modo inusitado. O intuito da
       fotográfica preparada por si e   a procura pela evasão do espaço   performance não define o resul-
       por Artur Rosa, seu marido, que a   de representação.             tado pictórico final, mas possi-
       auxilia a partir de 1969. Intervindo                              bilita visualizar o processo, uma
       sobre a fotografia como matéria   Estudo para um enriquecimento    vez que a encenação corporal
       plástica, após a revelação da    interior, de 1977-1978, obra para-  e gestual do movimento e a sua
       película, a artista sugere outros   digmática de Helena Almeida,   duplicação imagética permitem
       significados que advêm de pro-   situa-se cronologicamente num    a criação de outras imagens,
       postas pessoais de hermética     período em que a sua pesquisa    oferecendo renovadas camadas
       interioridade. As imagens a preto   ganhava maturidade. Integrada   de leitura da obra.  A atitude
                                                                                         3
       e branco captadas, nas quais a   na série homónima, a obra é      de apropriação e de assimilação
       sua imagem ocupa uma posição     composta por seis fotografias    da mancha azul-cobalto, marca
       axial, apresentam múltiplos pla-  a preto e branco organizadas    autoral de Helena Almeida,
       nos imagéticos e temporalidades   sequencialmente. Este políptico   é alcançada pelo emprego estu-
       diversas. Manipulando o espaço   é testemunho de uma atitude que   dado da matéria e da imagem,
       de representação, que é o do seu   resulta em novos modos para    e tem sido associada a um ato
       estúdio, ativado pelo seu corpo e   inscrever o corpo, captando-o   de emancipação face ao domínio
       simultaneamente registado, cria   em imagens condicionadas pela   masculino no panorama artístico
       visualmente outro território habi-  ulterior aplicação da tinta de   da época e a uma atitude de
       tado inúmeras vezes. A artista    cor azul-cobalto. A artista surge   resposta à objetificação feminina,
       origina um “mise en abyme entre   de costas para o observador,    observada, por exemplo, no tra-
       o seu corpo, a imagem do seu     posicionada no centro de um      balho de Yves Klein, que recorria
       corpo, e a gestualidade” , longe   corredor. Empunhando um pincel,   a idêntica matiz. 4
                            2
       da vontade de se eternizar na mera    simula a ação pela qual aplica
       representação pessoal. Durante    tinta na superfície da imagem.
       a década de 1970, Helena Almeida,     De seguida surge frontalmente,
       refletindo sobre os modos de     encarando o observador, parcial-
       habitar o espaço de uma imagem,   mente coberta pela mancha que
       apresenta inéditas propostas     se desloca progressivamente
       em ciclos como Pintura Habitada   em direção à sua boca que, em
       e Desenho Habitado. Nelas, o seu   simultâneo, se abre para a engolir.
       corpo e o seu rosto são veículo   Desenvolvendo a série com inten-
       coreográfico e articulam-se com   ção narrativa, a artista desvenda
       a pintura de manchas cromáticas   gradualmente novas possibilida-
       e com o desenho de linearidade   des plásticas permitidas por uma
   25   26   27   28   29   30   31   32   33   34   35