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Rosa Almeida
       (Lisboa, 1966)                                                                                          34



       O trabalho de Rosa Almeida veicula simplicidade e depuração ao explorar as pos-
       sibilidades da linguagem no campo visual através da escrita. Recorrendo a frag-
       mentos visuais e semânticos, a artista articula-os e elabora composições próxi-
       mas do universo da poesia visual. São imagens concretas, de absoluto detalhe,
       compostas por excertos de criações literárias ou musicais, memórias e pensa-
       mentos pessoais de cariz diarístico, aquelas que Rosa Almeida transporta para a
       sua obra. Verifica-se uma articulação entre a cadência e ritmo semânticos, som
       e música, que exerce um ascendente sobre a artista no modo como elabora as
       composições visuais, utilizando-os em citação quais ready mades comunicacio-
       nais. Impressiona a minúcia e o tempo que aplica na sua elaboração. Rosa Almeida
       escreve em inglês, sem nomear pessoas ou lugares, permitindo ao observador
       anónimo que se reconheça. A interpretação dos fragmentos verbais que cada
       observador  faz  está  intimamente  relacionada  com  o  modo  como  se  identifica
       com eles, ao reconhecer um padrão próprio, único para cada observador segundo
       a sua vontade.   1





       Smoke Get In Your Eyes (New      ótico provocado pelos materiais   Em Sem Título, de 2000, Rosa
       York, New York), de 2000, é uma   aplicados sobre a superfície de   Almeida regista fotograficamente
       variação de um ciclo que a artista   gesso, mimetizando a de uma   um desenho composto por
       iniciou em Londres. Tratou-se    parede. Sob os invólucros de     excertos verbais no centro da
       da instalação Smoke Get In Your   plástico dos maços de tabaco    superfície. Em torno da fotografia
       Eyes (1996), realizada na parede   queimados jazem inscrições de   inscreve a grafite e a caneta
       do seu ateliê na Slade School of   New York, New York (1977), música   outras expressões semânticas,
       Fine Arts, na University College   imortalizada por Frank Sinatra   e com aguada carimba fundos de
       of London, em 1996. Seguiu-se    em 1979. As palavras impressas   garrafas. As letras, desenhadas
       Smoke Get In Your Eyes (I’m Going   denotam a emotividade velada   inúmeras vezes recorrendo a uma
       Home) (1997), que foi apresentada    pelo fumo dos cigarros acesos,   régua, reforçam o sentido de
       numa exposição, também           fumados num espaço cujas pare-   arrastamento e de repetição
       na Slade School, em 1997, e, ainda,    des encerram metaforicamente   verificada na utilização conti-
       Smoke Get In Your Eyes (How Deep    intimidade e memórias pessoais.  nuada de palavras e de certas
       Is Your Love) (1998), mostrada                                    expressões, revelando um certo
       na Galeria Cesar em Lisboa, em   Em Sem Título, de 2001, a artista   automatismo, próximo do auto-
       1998. Estas obras precedem a da   elabora uma composição visual,   matismo discursivo escutado
       coleção, adquirida à Galeria Cesar,    mediante a collage de fragmentos   em diálogos do quotidiano.
       em 2001. Obra parietal, esta     de uma fotografia, criando em
       sugere a existência de um perso-  simultâneo pequenas manchas     É de notar que Rosa Almeida,
       nagem anónimo cuja experiência   de cariz geométrico com lápis de   em ambos os desenhos, assina
       é repetida por outros, refletindo    cor, e inscrevendo pensamentos e    a superfície do papel indicando
       a audição obsessiva de uma música   expressões do quotidiano coletivo.    a data, demonstrando que a sua
       e a recordação de “momentos      Yes e No são duas das expressões   voz se integra entre aquelas que
       profundos de emoção”.  A música,    captadas pela câmara fotográfica   povoam a composição. Equivalen-
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       articulada com memórias da inti-  que habitam o desenho de modo   do-se representativamente aos
       midade pessoal, é mediada pela   orgânico. Quase parecem respos-  fragmentos verbais que escolhe,
       ação do dispositivo agregado ao   tas para os fragmentos episódicos   a artista assume o anonimato dos
       gravador que apresenta as faixas   fictícios que ocupam a superfície   transeuntes e dos habitantes de
       musicais, não permitindo a audi-  do papel acompanhados por       uma qualquer cidade.
       ção da mesma música repetida-    excertos de músicas de Jesus
       mente. Em termos visuais, esta   Christ Superstar (1971), de Andrew
       mediação é sugerida pelo efeito   Lloyd Weber e Tim Rice.
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