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Augusto Alves da Silva
       (Lisboa, 1963)                                                                                          38



       Augusto Alves da Silva é um artista que se destaca no domínio da fotografia e do
       vídeo, no último quartel do século XX, pela dicotomia entre realidade e imagem
       que explora. A partir da década de 1990, consegue uma crítica unânime pelo inex-
       pressionismo com que captou uma sociedade urbana fragmentar, anónima e
       gélida, imprimindo tais características no tratamento homólogo entre humano
       e o objeto.  Na sua obra, questiona aspetos de cariz etnográfico, com o intuito de
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       elaborar possibilidades para a fotografia. Estabelece diálogos entre o  medium
       e os cânones hodiernos, interrompendo o fluxo temporal e o regresso de forma-
       lismos historicamente associados a um idealismo imanente da sua existência
       no mundo.    2






       Interrogando a imagem, Augusto   observar esta característica     durante este processo. Augusto
       Alves da Silva adota uma posição   em Uma Cidade Assim, uma série   Alves da Silva não recorre
       de reserva face às convenções    sobre Matosinhos. 3              a artifícios, mas a sua obra assume
       usadas na conceção de imagens,                                    um carácter ilusório, longe
       e também no modo como essas      A obra de Augusto Alves da Silva   da espontaneidade imagética
       imagens determinam a com-        pode inscrever-se no género da   que de início habitou nas redes
                                                                                4
       preensão da realidade. A foto-   paisagem. As suas fotografias    sociais.  Tal desígnio coloca
       grafia surge como representação   desconstroem a preexistência    o observador numa posição de
       codificada da relação entre      da ideia de identidade do espaço,   interpelação entre si e os signos
       realidade visual e mental para    do lugar, e a relevância do motivo   de uma imagem que deve decifrar,
       a expressar. A fotografia não    de interesse daquilo que deve ser   obrigando-o a ser mediador entre
       representa de facto a realidade   cristalizado pela objetiva da sua   simulação e veracidade.
       da perceção total, orientada     câmara fotográfica. Em relação
       segundo o princípio dos sentidos,   ao seu trabalho sobre a seriação,   Sem Título (A.A.S. 26) e Sem
       mas simula essa realidade a partir   o artista procede de modo a que   Título (A.A.S. 29), ambas de 1999,
       de um sentido único. A visão é   a imagem sugira uma narrativa    pertencem à série Abrigo, um
       instrumento para Augusto Alves   fragmentada e um tempo alinear,   ciclo de trinta e cinco fotografias
       da Silva. A partir dela, o artista   ao dispersar a imagem de um    apresentadas na Galeria Pedro
       apresenta imagens objetivas,     determinado espaço e recorrendo    Oliveira, no Porto. Em Sem Título
       aparentemente desinteressadas.   a uma representação cuidada      (A.A.S. 26), de 1999, o artista
       O tratamento da criação imagética   para esse final. Augusto Alves    regista a orla de um bosque cujas
       é tecnicamente irrepreensível,   da Silva reflete sobre os detalhes,   árvores nuas se apresentam
       formalmente neutro e prosaico,    imputando uma metodologia       cristalizadas e estoicas durante
       contudo, uma observação          que resulta na encenação de um   o inverno. A verticalidade da
       demorada revela uma sensação     primeiro momento de captação,    imagem, patente pela dispersão
       de deslocamento, de evasão, que   depois orientado segundo os seus   de árvores pelo espaço, contrasta
       provoca estranheza na perceção   objetivos. Não escapa qualquer   com a horizontal brancura da
       identitária da relação estabelecida    dimensão da imagem fotográfica,   neve e com os matizes cinzentos
       entre o mundo e a visão. O artista   agindo a partir do momento em   do céu. Articulando-se com a
       torna o lugar irreconhecível,    que seleciona o ponto de vista, e   serra na paisagem existente para
       ou melhor, evadido do próprio    concentrando-se na composição    lá dos rochedos cobertos que
       ambiente em que se encontra      dos elementos, das tangenciais    assinalam o declive oculto do
       inscrito. As séries de registos    a outras imagens, até ao momento   monte, as árvores são testemunho
       fotográficos que concebe revelam   em que seleciona o enquadra-   da passagem do tempo. Sem
       imagens cuja leitura remete para   mento final, podendo passar por   Título (A.A.S. 29), de 1999, apre-
       a perceção de diferentes locais   um reenquadramento, descen-     senta uma imagem captada num
       de modo descontínuo, pois ainda   trando-o até, ao tratar o negativo   local inóspito durante o inverno.
       que seja o mesmo espaço, isola-o   da imagem em película. Escala    Observa-se um monte coberto de
       da narrativa que cria. É possível   e cor são aspetos que considera   neve, algumas árvores despidas
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