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Fernando Brito
(Pampilhosa da Serra, 1957) 64 65
Fernando Brito é um artista multidisciplinar e heterodoxo que revela na sua prática
um grande ecletismo e uma atitude crítica quanto à matriz do atual sistema de
arte. A sua integração no movimento Homeostético, surgido em Lisboa por volta
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de 1982, por convite dos seus fundadores, é fulcral para compreender a sua criação
artística. O artista faz uso de uma linguagem humorística para conceber críticas
sagazes, manifestando uma certa antropofagia por outras linguagens, adversa ao
reconhecimento de uma marca autoral. Afim dos valores concetuais, e promo-
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vendo uma descontextualização dos materiais em relação aos temas, Fernando
Brito manipula as suas influências, apropriando-se dos objetos para confrontar
manifestações polémicas. A sua obra aproxima-se das vanguardas do séc. XX,
e assim, de uma atitude de protesto contra o convencionalismo reminiscente do
marginalismo do movimento dadaísta, e do racionalismo intelectual traduzido
pelo abstracionismo geométrico e pela matriz norte-americana da pop art.
Em Sem Título (CF08), de 1988-1997, Sem Título (Cruzeiro), de 1993, Bycicle Wheel Remade, de 2001,
Fernando Brito recorre a fórmica é nesse ano apresentada em constituída pelo banco Max Bill,
de cores azul e encarnada, que Imagens para os anos 90, exposição da Zanotta, e por um garfo de
dispõe de modo quadripartido, comissariada por Fernando Pernes bicicleta da Bomber, apresenta-se
alternando-as, e aplicando e por Miguel von Hafe Pérez, enquanto pastiche e interpretação
o material sobre contraplacado. na Casa de Serralves, no Porto. contemporânea da consentânea
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Também em Sem Título (CF12), de Fernando Brito cria uma obra Roda de Bicicleta, de 1913, ready-
1988-1997, da mesma série, utiliza de consideráveis dimensões com -made de Marcel Duchamp, sím-
igual técnica. Elegendo as cores peças da Lego, escolhendo-as bolo do dadaísmo. O vocabulário
azul e amarela, o artista recorre segundo um critério cromático que Fernando Brito utiliza nesta
a uma organização que sujeita assente nas cores primárias obra aproxima-o de uma lingua-
plasticamente a geometria de um e nas tonalidades da cor branca. gem de matriz neo-duchampiana
quadrado a uma rotação de 90º Embora a obra obedeça a uma irrisória cuja expressão assenta
com eixo central sobre a super- estética simétrica, as peças são nas dimensões da edição, da
fície, também quadrada, criando justapostas anarquicamente cópia. Incorporação proposta
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quatro triângulos equiláteros. Em citando uma atitude opositiva a por Marina Bairrão Ruivo e Pedro
ambas as obras, Fernando Brito essa simetria de vincada ortogo- Portugal, a obra foi adquirida
sugere a abstração geométrica nalidade, sugerindo simultanea- à Galeria Filomena Soares,
e utiliza um material termola- mente as técnicas de construção em 2004.
minado desprovido de natural da marcenaria, preceitos carac-
reminiscência artística, associado terísticos do movimento De Stijl.
comumente à pavimentação Adquirida em 1998, a obra revela
de espaços, ou ao acabamento uma atitude de apropriação de
de superfícies de objetos de materiais comuns da contempo-
cariz utilitário. Apropriando-se raneidade e de anteriores lingua-
do material e subvertendo a sua gens estéticas. O artista, ao uti-
normal aplicação, ao colocá-lo lizar ready-mades para conceber
parietalmente, dota-o de novo uma obra cujo carácter simbólico
significado. Adquiridas direta- se apresenta aparentemente re-
mente ao artista para a coleção, ligioso, desenvolve também uma
em 1997, ambas as obras parodiam conceção estrutural que se apro-
as dimensões concetuais xima ironicamente dos princípios
do minimalismo. do neoplasticismo.

