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Joaquim Bravo
(Évora, 1935 / Lisboa, 1990) 60
O pintor Joaquim Bravo destaca-se pela linguagem expressiva que utiliza, em
aproximação à abstração gestual e à nova abstração. O artista desenvolve a sua
obra partindo de valores resgatados da leitura de autores associados ao dadaísmo
e ao surrealismo, cujas referências anula no momento da criação. A inexistência
de narrativas decorrentes dessa anulação beneficia o essencialismo da comuni-
cação visual da sua obra. O artista encontra no desenho um território de pesquisa
que articula com a criação sistemática nos domínios da pintura e da escultura,
para explorar formalmente resoluções visuais diferentes das anteriores. A génese
do discurso pictórico que o artista desenvolveu assenta na sobreposição de
camadas que ocultavam gradualmente o sentido inicial da sua pintura. A atitude
de ocultação marcada pela impetuosidade gestual, próxima daquela de Jackson
Pollock, caracteriza o seu discurso plástico e visual, tanto no desenho, quanto na
pintura. A sua obra de cariz geométrico manifesta o desenvolvimento consistente
de um vocabulário próprio de cunho autoral. 1
Sem Título, de 1983, foi por Joaquim sua obra. Na superfície impoluta Na coleção preservam-se, também,
Bravo desenvolvido nos últimos da tela de linho, o artista elabora dois desenhos da década de 1980.
anos do seu percurso. Observam- uma enigmática construção São exemplificativos das suces-
-se na superfície pictórica quatro encerrada em si, delimitadora sivas séries que Joaquim Bravo
bandas que acompanham vertical- de uma figura poligonal geometri- executou ao longo da vida en-
mente a composição de margem zada constituída por elementos quanto exercício de introspeção.
a margem. Intercaladas com ortogonais que se encontram Organizadas horizontalmente,
essas bandas, existem outras em ângulos de noventa graus. os desenhos enunciam a capa-
cinco, cromaticamente próximas Ladeando-a, à direita, observa-se cidade que o artista possui para
da crueza da tela de linho. A meto- um círculo cinzento que subjaz resgatar temas e estruturas
dologia processual adoptada a outro branco que oculta outros anteriormente trabalhadas.
e o resultado obtido evocam dois, um negro e um cinzento, Ainda que a composição de
a hard-edge painting que o influen- esquematizando a figura de uma ambas evoque uma aparente
ciara no início da sua carreira lâmpada. Exposta em 1990 na narrativa sugerida pela utilização
artística. Organizando a superfície Galeria Pedro Oliveira, no Porto, de materiais e morfologias seme-
pictórica horizontalmente, a obra integrou também a exposi- lhantes, constituem elementos
o artista concebe com fita isola- ção Joaquim Bravo: Reencontros, na de exploração formal própria.
dora quatro planos verticais que Galeria EMI-Valentim de Carvalho,
pinta de negro, às quais sobrepõe em 1992, por ocasião de uma Sem Título, de 1980-1990, é exe-
uma malha elaborada com quatro homenagem organizada conjunta- cutado com tinta acrílica negra
diferentes cores. Após a remoção e branca sobre papel. Apresenta
do elemento que inscreve, essas mente com a Galeria Alda Cortez dois elementos cujo desenho os
fímbrias, pintadas individualmente e a Galeria Monumental, em Lisboa. aproxima do signo da Casa.
de cor-de-laranja, amarelo, verde A pintura convoca o carácter Elaborados com uma trincha larga,
e azul, surgem como memória meditativo, de cariz introspetivo, é possível observar o arrastamento
constrangida dos movimentos que um espaço restrito provoca preciso da matéria acrílica negra
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de rápida e dinâmica gestualidade na imaginação . A expressão com a qual o artista desenhou
suspensos pelos planos cor que intitula a obra, uma viagem as figuras herméticas. Aplicando
de alabastro. em torno de um quarto, sugere tinta branca em determinadas
as possibilidades da divagação secções da circunscrição da
A pintura Viagem à volta do meu intelectual e criativa num espaço figura, Joaquim Bravo explorava
Quarto, de 1990, realizada no último íntimo e de isolamento que, a impermanência formal, a sua
ano de vida de Joaquim Bravo, porém, não inibe a capacidade de transgressão e mutação, assina-
convoca a dimensão poética da evasão de determinada realidade. lando momentos de reflexão.

