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Fernando Calhau
(Lisboa, 1948-Lisboa, 2002) 74
Fernando Calhau desenvolve uma obra de grande proximidade aos valores do
concetualismo e do minimalismo através da criação de uma linguagem concisa,
serial e tendencialmente monocromática. Estuda pintura na Escola Superior de
Belas-Artes da Universidade de Lisboa e gravura na Slade School of Fine Arts,
com apoio da Fundação Calouste Gulbenkian e orientação do artista Bartolomeu
Cid dos Santos. A primeira exposição individual fora sobre esta técnica, Gravuras
Brancas, na Cooperativa Gravura, em Algés, em 1968. 1
Os meios técnicos, processuais outros materiais na sua pesquisa, do desenho. Exposto na inaugu-
e plásti cos que utiliza repercu- volumes e texto, recorrendo ração da Galeria Coluna, em
tem-se nos resultados, seja pela ao ferro e ao néon. 5 Guimarães, em 1991, este desenho
economia de meios, seja pelo filia-se na linguagem concetual e
recurso a planos geométricos Apresentada na exposição no gosto do artista por uma redu-
e depurados, com preferência Pintura, na Galeria Cómicos, ção ao mínimo . Ambas as obras
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pelas superfícies quadráticas em Lisboa, em 1989, #50, de 1988, foram adquiridas diretamente
de carácter simétrico, ou pela surge na senda da pesquisa que ao artista em 1997.
aplicação cromática de valores Calhau desenvolve sobre o campo
integrais, da negrura à alvura, expandido da pintura, recorrendo
e das suas gradações sugestiva- à desconstrução do que carac-
mente monocromáticas. O negro teriza a prática pictórica. Cons-
persiste no seu trabalho, qual tituída por uma tela retangular
reminiscência da técnica de pintada de negro, delimitada por
gravura, a maniére noire. Em um elemento de aço de grande
termos concetuais, o seu uso escala, a obra denuncia uma ati- Notas
radica-se nos valores da vanguarda, tude disruptiva. A sua estrutura
do abstracionismo de Malevich e de aço, composta depurada e 1. LEAL, Joana Cunha,
do modernismo , para não recuar racionalmente, sugere o questio- Centro de Arte Moderna
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a ascendentes na história da arte, namento da bidimen sionalidade José de Azeredo Perdigão:
como aqueles da pintura de pictórica, uma vez que a matéria Roteiro da Coleção. Lisboa:
Caravaggio ou do tenebrismo é tratada de modo escultórico. CAM – Centro de Arte
Moderna da Fundação
de Goya. Fernando Calhau explora O radicalismo do desígnio do Calouste Gulbenkian,
princípios como os do espaço, autor é simulado pelo confronto 2004, pp. 124-125.
do tempo e da memória, onde de dois elementos díspares
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o negro “é o desconhecido… e alegadamente antagónicos , 2. “Conversa entre Delfim
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ou a sua promessa” e a pintura da pintura e da escultura, da tela Sardo, Fernando Calhau
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e Michael Biberstein”,
é entendida enquanto luz que e do aço. in Paint it Black: Calhau
a escuridão reforça. A partir Biberstein, Funchal:
dos anos 1970, Fernando Calhau Em #49, de 1991, Fernando Calhau Fortaleza de S. Tiago
amplia os médiuns de trabalho elabora um denso plano negro, e Porta 33, 1995, p. 7.
através do recurso à fotografia, aparentemente homogéneo, que 3. Idem, p. 8.
ao cinema e ao vídeo. A sua pes- centra na superfície da folha de
quisa organiza-se em ciclos de papel e cuja marcação modular 4. Idem, p. 12.
marcada depuração geométrica, provém do léxico da gravura.
que também derivam do interesse O monocromatismo do carvão 5. JORGE, João Miguel
pela arquitetura e pelo espaço, aplicado sobre papel, e a sua Fernandes, “Um Passo
no Escuro”, in BARBOSA,
designadamente em aproximação subtil gradação, testemunham Maria Manuel Pinto;
às propostas de artistas como a memória da gestualidade JORGE, João Miguel
Rauschenberg, Serra e Turrel, mecânica da mão do artista Fernandes; Rui Chafes,
atendendo ao estudo da forma, sobre o suporte. Quase imperce- Fernando Calhau: Um
da escala e da proporção. A partir tível é a existência de um quadrado Passo no Escuro, Lisboa:
Câmara Municipal de
dos anos 1980, Calhau inclui que centraliza o monocromatismo Lisboa, 2002.

