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Ângelo de Sousa
       (Maputo, 1938 / Porto, 2011)                                                                           150



       O pintor Ângelo de Sousa começa a expor nos anos 1960. Apresenta uma obra de
       características singulares, onde sobressaem valores de pendor estruturalista
       e um despojamento afim do minimalismo. A sua prática radica em propostas de
       aparente simplicidade visual numa economia de meios, provenientes das premis-
       sas de um legado modernista.  A estrutura esquemática das propostas, na senda
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       do abstracionismo, é reveladora de uma pesquisa em torno do ponto, da linha
       e do plano para criar aproximações imagéticas ao estudo da forma e da cor.







       Utilizando como mote a persis-   ler as linhas que se desenham    aqui evocados pela depuração
       tência sobre os mesmos motivos,   desde os vértices da tela até   formal, o artista redu-las a uma
       alcança resultados com múltiplas   ao seu centro. A ténue variação   finalidade decorativa. Ambas as
       variações, onde se articulam     cromática observada simula uma   pinturas foram adquiridas à Cruz
       elementos essenciais, como       leitura homogénea da imagem.     Vermelha Portuguesa em outubro
       os da luz, do espaço e do tempo.    A relação entre luz e o ritmo dos pla-  de 1998.
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       De perfil experimental, Ângelo de   nos, onde se observa um aparente
       Sousa manipula pintura, escultura,    monocromatismo, reforça
       desenho, fotografia e cinema,    o carácter intimista da pintura
       domínios onde desenvolve         e a habilidade do pintor para evocar
       conceitos elementares extraídos   outros espaços a partir da bidi-
       ao quotidiano, depurando-os      mensionalidade da tela. A obra
       e geometrizando-os com uma       foi adquirida à Galeria Quadrado          Notas
       semântica própria. É o que se    Azul, no Porto, em junho de 1999.         1. PERNES, Fernando,
       observa quando o artista explora                                            Ângelo: “Entre a Alegria
       variações de um mesmo motivo     Pintura Decorativa: Cruz Vermelha 3        e a Melancolia”, in
       e quando articula símbolo e per-  e Pintura Decorativa: Cruz Vermelha       ALMEIDA, Bernardo Pinto
       ceção, ou quando resgata da sua   4, ambas de 1998, pertencem               de; GIL, José; RAMOS,
                                                                                   Maria (coord.); PERNES,
       matriz arquetípica a interpretação   a uma série onde o artista visou       Fernando; PÉREZ, Miguel
       pessoal que apresenta.  Numa     explorar a perceção do símbolo             von Hafe (coord.); Ângelo
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       fase inicial, observa-se o uso da   cruciforme. Ambas apresentam            1993: Uma Antológica.
       matéria para cobrir a superfície   variações do signo de uma cruz           Porto: Fundação de
                                                                                   Serralves, e Lisboa: CCB –
       do suporte, recorrendo ao trata-  circunscrito na superfície qua-           Centro Cultural de Belém,
       mento cromático absoluto. Esse   drática da tela. Sobre a tela é            1994, pp. 8-9.
       tratamento cromático provém      aplicada tinta acrílica encarnada
       da aplicação de tinta de cores   em camadas recorrendo a tape,             2. MAH, Sérgio, “Encontros
       em várias camadas, concebendo    depois removida. Derivam                   com as formas”, in Ângelo
                                                                                   de Sousa: Encontros
       superfícies cuja ausência textural   da técnica utilizada, de planos        com as formas. Lisboa
       cria planos de grande densidade,   de gradações ténues do matiz             Fundação EDP, 2014, p. 21.
       aparentemente monocromáticos,    predominante contrastantes
       que enunciam uma espacialidade   entre si. Esta metodologia afirma         3. MARCHAND, Bruno,
       dúbia. 4                         a inscrição da geometrização               “A Cor Toma-me”, Ângelo
                                                                                   de Sousa, in Culturgest,
                                        prevista no plano, auxiliando a            Culturgest.pt/pt/media/
       Pintura depurada, C-2-2-Q,       inteligibilidade da sua intensidade        angelo-de-sousa/.
       de 1998, organiza-se em planos   lumínica. A intitulação de ambas           Consultado em 8.5.2025.
       triangulares que resultam        as obras denuncia a atitude irónica
       da divisão da superfície pictórica.   que Ângelo de Sousa adoptou          4. OLIVEIRA, Leonor,
                                                                                   “Ângelo de Sousa”, in
       Ângelo de Sousa emprega tinta    face à aproximação dos valores             MNAC – Museu Nacional
       acrílica de cor predominante-    do minimalismo, pois ainda que as          de Arte Contemporânea
       mente azul, para criar planos    premissas da sua eclosão denun-            do Chiado, museuartecon
       de subtil alternância de tom,    ciassem a utilização de valores de         temporanea.gov.pt/pt/
                                                                                   artistas/ver/74/artists.
       onde a manipulação da luz permite   carácter ornamental, visualmente        Consultado em 8.5.2025.
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