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171 (Coimbra, 1940 – Lisboa, 2016) Ana Vieira
Formada em pintura, na Escola Superior de Belas-Artes, em Lisboa, Ana Vieira
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é uma artista comprometida com a vanguarda. Autora de uma obra inquietante, o
trabalho de Ana Vieira, a partir dos anos 1960, apresenta uma grande coesão con-
cetual e plástica, através da qual explora conceitos como a identidade, a evasão
e a memória. Ana Vieira trouxe questões da infância e da identidade feminil para
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a sua prática artística, uma linguagem de libertação estética que também ficou
marcada pela representação de enunciados objetuais ou arquitetónicos, a partir
dos quais problematizou o corpo e a finitude.
Pronomes, de 2001, é uma insta- O corpo ausente, mas sugerido Notas
lação apresentada na exposição pelos fatos, é invocado pelas
homónima realizada na Galeria figuras estáticas numa encenada 1. PIRES DO VALE, Paulo,
Quadrado Azul, no Porto, em transitoriedade e “materialização “Ana Vieira”, in Tudo o
que eu quero: Artistas
setembro de 2001 e, em novembro do fim”. Esta ideia de brevidade Portuguesas de 1900 a
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do mesmo ano, na Galeria Franco é reforçada quando a artista 2020, Coordenação de
Steggink, em Lagoa, na Ilha de convida o observador a percorrer Clara Távora Vilar. Ensaio
São Miguel, nos Açores. Composta o espaço entre os fatos que de Bruno Marchand e
por onze vultos negros suspensos oscilam à sua passagem e a Helena de Freitas. Textos
de 33 autores. Lisboa:
colocados no espaço de modo metamorfosear-se neles através Fundação Calouste
disperso, a disposição dos trajes do seu reflexo, qual “projeção de Gulbenkian, 2021, p. 158.
invoca o “peso do corpo como uma vivência que a transcende
limitação física a superar”. enquanto indivíduo e nos faz 2. MEDEIROS, Margarida,
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Os fatos de feltro preto simulam repousar numa espécie de aceita- Ana Vieira: Pronomes,
Lagoa: Franco.Steggink,
a ideia de uma multidão que ção tácita da dialética vida-morte”. Cultura Contemporânea,
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enverga trajes tradicionais A referência voyeurística estende- 2001, p. 12.
açorianos, evocativos do local -se a um hipotético olhar ocultado
da infância da artista, e da relação pelo capote, que não permite ser 3. MARTINS, Celso, “Uma
que manteve com a criação identificado. Em articulação com questão de gravidade”,
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Cartaz Expresso, in
de figurinos para peças de teatro. os vultos, escuta-se uma voz, alter- História da Colecção_
Instalação feita à escala humana, nadamente feminina e masculina, Incorporações_ Propostas
esta representa, em certa que repete pronomes pessoais. de Aquisição_Colecção
medida, uma súmula cumulativa A nomeação sequencial e mono- de Arte_ 2001, 31.10.2001,
de fragmentos da vivência da córdica desses pronomes releva p. 36.
artista. Os capotes e os vestidos o sentido de pertença e semelhança 4. COSTA, Jorge da,
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são suportados interiormente por e sugere também uma distância 45 Obras da Colecção
uma estrutura de ferro, por vezes espectral que o observador esta- de Arte Contemporânea
coberta por uma chapa metálica. belece com as figuras aparentes, da Portugal Telecom,
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Esta superfície espelhada, vultos desagregados e de identi- Lisboa: Fundação Portugal
Telecom, 2013.
de folha-de-flandres, permite ao dade desconhecida.
observador vislumbrar o seu vago 5. MARTINS, Celso, idem.
reflexo por entre a fenda criada
pelas orlas do tecido negro 6. Idem.
e permite também que aquele 7. MEDEIROS, Margarida;
vagueie pela instalação, entre Ana Vieira: Pronomes,
uma estudada “malha de associa- Lagoa: Franco.Steggink,
ções e diálogos surdos”. 5 Cultura Contemporânea,
2001, p. 12.
8. Idem, p. 11.
9. Idem.

