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Rita Barros
       (Lisboa, 1957)                                                                                          46



       A fotografia, o Hotel Chelsea e Nova Iorque são dimensões centrais no percurso
       artístico de Rita Barros. A sua prática fotográfica é de cariz documental e intros-
       petivo e representa valores que condicionaram o seu rumo . Adotou a fotografia,
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       o vídeo e os livros de artista num discurso plural e, em simultâneo, como campos
       de conceção artística, escolhendo como motivos o corpo, o seu e o dos outros,
       articulados com o espaço citadino, público e privado. A narrativa visual a partir da
       qual representou o Hotel Chelsea, um símbolo de libertação axial no imaginário
       nova-iorquino, que tratou por via dos retratos, ou as paisagens urbanas, os múl-
       tiplos fragmentos e as estudadas performances fotografadas, revelam-se docu-
       mentos que relatam o quotidiano operático do emblemático local.





       Em Nova Iorque, cidade-símbolo   representou o motivo matricial e   do Punk, do New Wave, e ainda
       da cultura underground desde     icónico da sua prática fotográfica.    do Hip Hop, disrompe com a
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       a década de 1960, assiste-se ao   O Hotel Chelsea foi para si mar-  sonoridade até aí vigente.  Neste
       gradual insurgimento social dos   cante, pela incontornável asso-  contexto, entre 1985 e 1986, Rita
       movimentos de contracultura.     ciação a diferentes linguagens    Barros frequenta workshops de
       Durante os anos de 1980, o quoti-  e dimensões artísticas, como   fotografia na School of Visual
       diano era pautado pela vitalidade   as do kitsch e da pop art. Desde   Arts e, no ano seguinte, começa
       dos movimentos de ativismo       1884, aquando da sua abertura,   a fotografar músicos e intérpretes
       que organizavam manifestações    o edifício projetado no estilo   em concertos de Jazz e de Rock
       que apelavam ao desarmamento,    revivalista neogótico pela Hubert,   que frequentava, e gradualmente
       à alteração das políticas climá-  Pirsson & Company, e original-  concertos de Pop, Country e de
       ticas, à justiça racial, à defesa   mente criado como cooperativa   música erudita. Neste contexto,
       dos direitos das mulheres e das   habitacional, foi local de passagem    ao colaborar com a jornalista
       pessoas integradas na comu-      e de referência para sucessivas   Jesse Nash, Rita Barros fotografa
       nidade LGBTQIA+. Rita Barros     gerações das comunidades artís-  Keith Richards num concerto
       irá acompanhar de perto estas    tica e intelectual, principalmente   de Billy Preston na Bottom Line,
       convulsões sociais. Após termi-  nas décadas de 1960 e 1970.  Patti   e consegue a sua primeira foto-
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       nar a Licenciatura em Línguas –   Smith, Bob Dylan, Leonard Cohen,   grafia creditada. A partir desse
       Tradução e Interpretação no ISLA   Janis Joplin, Robert Mapplethorpe,     momento, e fotografando princi-
       – Instituto Superior de Línguas    Chet Baker, Jack Kerouac, Jimi   palmente a P&B, retrata figuras do
       e Administração, em Lisboa,      Hendrix são algumas dessas       panorama musical como James
       e o curso de Fotografia da Escola   figuras. Pode ainda referir-se que   Brown, Led Zeppelin, Philip Glass,
       Superior de Belas-Artes de Lisboa,    Andy Warhol realizou ali Chelsea   Ray Charles, Lou Reed, Bruce
       em 1979, ruma aos Estados Unidos    Girls, em 1966, um filme de culto   Springsteen, Pavarotti, entre
       da América, e estabelece-se em   para o cinema experimental,      outros.  Com o decorrer da sua
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       Nova Iorque, em 1980. Em 1981,   e Arthur C. Clarke, que vivia    atividade como retratista, usa
       torna-se assistente de Gérard    no Apartamento #1008, escreveu   o seu apartamento como estúdio
       Schreiner, um colecionador de    2001: A Space Odyssey, de 1968,   para fotografar artistas e músicos,
       arte moderna, com quem viaja     cuja adaptação para o grande ecrã   como Paul Auster, John Laurie ou
       para as Maldivas, a Índia, o Nepal,   teve a direção de Stanley Kubrick.  Iggy Pop, cujas fotografias publica
       o Sri Lanka, o Thaiti, onde visitou                               em editoras de cariz independente
       o túmulo de Gauguin, interrom-   O carácter multicultural nova-   como a Details, a Downton, ou
       pendo com breves passagens por   -iorquino permitiu a incessante   a East Coast Rocler. Esta atividade
       Nova Iorque, Lisboa e Basileia.    proliferação de manifestações   deu-lhe a oportunidade de integrar
       Em 1984, quando regressa a Nova   culturais, um ambiente que      a exposição coletiva na PS 1
       Iorque, acaba por se instalar    influenciaria Rita Barros.       Contemporary Arts Center,
       no apartamento #1008, no Hotel   A intensidade de novos ritmos    do MoMa – Museum of Modern
       Chelsea, na 222 West 23rd Street,   musicais, de cariz experimental e   Art, em Nova Iorque, em 1987.
       em Lower Manhatan. Este lugar    subversivo, como os do No Wave,   Representou, também, a divulgação
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