Page 48 - Fundação MEO - Coleção de Arte Contemporânea
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das fotografias em publicações   perna traçada. Uma fita branca   Centro de Cultura de Curitiba em      48
       como The New York Times, The     segura o seu cabelo curto e volu-  novembro de 1998, em 15 Anos
       Guardian, Le Nouvel Observateur,   moso, o vestido é de malha branca   Chelsea Hotel, na Galeria 111, em
       Vogue, Expresso, Le Monde,       com frisos de girassóis e corte   Lisboa, em janeiro de 1999, e no
       entre outras.                    alusivo às tendências da moda    Porto, em janeiro de 2001, e por
                                        das décadas de 1920 e de 1960,   fim em Chelsea Hotel, no Wilfred
       A partir de 1989, Rita Barros    collants brancos condizentes     Lam Contemporary Art Museum,
       principia o registo regular do    e sapatos prateados de salto alto.   em Havana, em março de 2001.
       ambiente caleidoscópico vivido   Afirma a artista que a “explicação
       no Hotel Chelsea, fotografando    para os meus sapatos e telefone   Em 2011, o Hotel Chelsea é encer-
       os espaços, os amigos,           prateados”  seria 2001: A Space   rado e vendido pelo antigo pro-
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       os vizinhos e os funcionários    Odyssey ter sido concetualizada   prietário, os residentes são alvo de
       que garantiam a manutenção       no seu apartamento, revelando    ações de despejo, mas Rita Barros
       do edifício. Estes retratos ofe-  que a história do espaço se imis-  resiste, como tantos outros. Nessa
       recem-se como recordação dos     cuía nas suas escolhas. Em cima   época, a artista cria um projeto de
       inúmeros residentes e visitantes,   da mesa dispôs reconhecidas   intervenção social a que chamou
       e da familiaridade com que Rita   imagens da pop art. Um candeeiro    Displacement para contestar
       Barros convivia com o “caos      de secretária, um telefone fixo,   o encerramento do espaço
       otimista”  daquele espaço,       uma pequena caixa de arquivo,    e o desalojamento dos seus
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       registando a ocasionalidade dos   reproduções de Double Elvis (1963),     habitantes. Recusando-se a sair,
       encontros, símbolo de pertença   de Andy Warhol, e Masterpiece    aí permaneceu, continuando
       a uma comunidade em constante    (1962), de Roy Lichtenstein,     a habitar o espaço e presenciando
       frenesi.                         e ainda o seu gato Manuel, deitado    a degradação e metamorfose
                                        sobre envelopes. Na parede,      do local excecional que sofreria
       Hotel Chelsea é a primeira       pendura Campbell’s Soup Can      a banalização, atitude da qual
       exposição individual de Rita Barros,    (Tomato) on Shopping Bag (1966),   resulta Displacement 2.
       apresentada nos Encontros de     de Andy Warhol, um múltiplo
       Coimbra, em 1992. Nela, a artista   distribuído pelo The Institute
       oferece uma visão abrangente do   of Contemporary Art, de Boston,
       seu corpo de trabalho até à data.    Massachusetts, seguido de
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       As imagens são a materialização   Landscape 6, da série Ten Lands-
       da visão subjetiva da realidade   capes (1967), de Roy Lichtenstein,
       que Rita Barros habita e são tam-  disponibilizado pela Galeria Leo
       bém o símbolo do “momento no     Castelli, em Nova Iorque, termi-
       interior da imagem fotográfica”.     nando com Trukey Shopping Bag
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       O espectro fotográfico que       (Corlett App.4) (1964), também de
       representa é alcançado num       Roy Lichtenstein, múltiplo provi-
       primeiro momento através do      denciado pela Galeria Bianchini,
       retrato de uma euforia exógena   em Nova Iorque. Estes elemen-
       ao seu olhar. Depois, organiza   tos, reproduções e múltiplos
       essa visão de modo seriado,      originais, são signos críticos da
       derivatório e obsessivo , obtendo   divulgação artística massificada
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       captações íntimas e isoladas,    pela publicidade  e do consumismo
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       reminiscências de um discurso    que democratiza o alcance da
       fetichista e compulsivo, a partir   arte, mas que, paralelamente,
       do qual expõe fragmentos do      potenciado pela american way of
       corpo, autónomos aos elementos   life, o naturaliza como outro objeto
       que ostenta.                     de consumo qualquer. Segurando
                                        o disparador na mão, com segu-
       Auto-Retrato, da série Fifteen   rança, “num gesto premonitório
       Years: Chelsea Hotel, 1991, é uma   das suas posteriores incursões
       imagem paradigmática na obra     fotográficas” , enfrenta a câmara
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       de Rita Barros. A pedido da Zoom   com um olhar convicto, decla-
       Magazine, fotografa-se no seu    rando que é, também, uma figura
       apartamento, para ilustrar       que representa uma alternativa
       uma das publicações da série.     de continuidade para os discur-
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       A artista retrata-se a ocupar    sos estéticos surgidos na década
       toda a composição, teatralmente   de 1960, e associados ao Hotel
       reclinada sobre os cotovelos e de   Chelsea. A obra foi exposta no
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