Page 13 - Fundação MEO - Net Arte no Triângulo das Bermudas
P. 13
globalização, noções de autoria e de obra de arte,
o conceito “ciborgue” e a perceção sensorial através
da computação e de experiências audiovisuais perfor-
mativas improvisadas. A exposição dá visibilidade a um
fenómeno que, na sua origem, acompanhou a inovação
tecnológica e inspirou experimentação.
PRIMEIRAS IMPRESSÕES DA INTERNET
A chegada da Internet gerou estranheza. Uma
expressão dessa desconfiança encontra-se, por
exemplo, nas palavras da jornalista Maria Elisa
Domingues, em 1997, ao iniciar o seu programa
de televisão dedicado ao tema da Internet:
“Boa noite, não mude de canal quando ouvir falar na
Internet, porque navegar não é tão complicado como
se pensa e, além do mais, se não aprender alguma
coisa sobre isto, corre o risco de ficar seriamente desa-
tualizado em relação ao mundo que o rodeia.” 8
Durante a década de 1990, os vocábulos compu-
tacionais anglófonos passaram a coexistir com mais
frequência com as palavras da língua portuguesa, Fig. 1 Captura de ecrã do sítio Ciberdúvidas.
suscitando inúmeras dúvidas e incertezas, como
revelado pelo jornalista José Alberto Carvalho no sítio 16. Sobre a instabilidade Atualmente, o dicionário da Academia das Ciências
Ciberdúvidas, como mostra a figura 1. Um dos prefixos frequentes para da terminologia relacionada de Lisboa integra vários vocábulos de origem inglesa
com as práticas artísticas
identificar a “novidade” representada pela Internet foi “ciber” ou “cyber”, e a Internet ver o texto de relacionados com a tecnologia computacional, tais
Ponte & Rivero-Moreno nesta
nas versões portuguesa e inglesa do grego kyber . Neste período, publicação. como, “browser”, “online”, “site”, “software” e “net”.
9
misturou-se o português e o inglês de formas bastante criativas. Por 17. Ver Nunes (2003). O potencial democrático inicial da Internet e o fervilhar
exemplo, Pedro Barbosa publica A Ciberliteratura: Criação 18. Ver Anderaos (1997). criativo dos seus primeiros momentos não se traduziu
Literária e Computador , realiza-se a exposição Cyber 19. Ver Malina (1998, p.8). numa coerência terminológica. Como em qualquer
10
98, uma notícia na Top 5% webzine intitula-se “O Cabo da fenómeno novo, encontramos aqui uma enorme varia-
Cyber Esperança” e a Newsletter do Instituto Português de Museus bilidade na grafia dos vocábulos que designam práticas artísticas
11
apresenta a galeria online Site-Specific como parte do “cyberespaço” que se relacionam com a Internet . Por exemplo, a comunidade
16
do Museu Nacional de Arte Contemporânea, em Lisboa . Este termo tecnoartística no Brasil, mais célere a sistematizar a sua produção
12
caiu, entretanto, em desuso. Os termos “net arte” e “net art” surgem artística neste campo, para além de arte cibernética, utiliza de forma
com mais intensidade uns anos mais tarde. Por exemplo, Luís Silva intercambiável, os termos “web arte” e “web art” . A panóplia de
17
18
escreve sobre a “net art portuguesa” , a Galeria Lisboa 20 Arte designações existentes reflete a dinâmica experimental e espon-
13
Contemporânea cria o projeto online LX 2.0, com o propósito de tânea associada ao suporte, que é apontada por Roger Malina como
“[encomendar] projetos de net arte” e, Margarida Carvalho dedica “parte de um processo básico de aculturação” da contemporanei-
19
14
um texto às “Práticas de Net.Art em Portugal” . dade. Cabe assim a cada investigador, artista ou curador estabelecer
15
o termo preferencial para o seu estudo, enquadrando a sua escolha
no processo histórico que lhe está na origem.
13
Sofia Ponte
Sofia Ponte

