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1.  Ver Rinehart e Ippolito   O PARADOXO DA SUSTENTABILIDADE DIGITAL
           (2014), Dekker (2010), Depocas
           (2003), Hodge (2000).
                                       Desde o advento da tecnologia digital, o património
           2.  Isto não implica que
           o modelo proposto possa ser   cultural tem sido criado, armazenado e preservado em
           generalizado para se tornar
           representativo da cultura em   formato digital por produtores e instituições culturais
           rede; em vez disso, o conceito   dedicadas à patrimonialização. Isto resultou num vasto
           de rede de cuidado oferece
           um exemplo de boas práticas,   acervo de “património digital”. Este património – seja
           de referência e de comparação
           para outras situações em que   resultante de projetos de arte nascidos no digital ou em
           humanos e não-humanos formam   grandes projetos nas humanidades digitais – é cons-
           uma rede relacional.
                                       truído sobre diferentes camadas técnicas e processos
           3.  Ver Dekker e Falcão
           (2017), Engel e Wharton (2014)   variados que se resolvem entre humanos e máquinas.
           e Rechert et al. (2013).
                                       A sua continuidade, isto é, a preservação da atividade
           4.  Ver Pope (2017)
           e Fitzpatrick (2011).       que garante a sua funcionalidade, depende profun-
           5.  Ver Dekker (2018)       damente de equipamentos técnicos e infraestruturas
           e Rinehart e Ippolito (2014).
                                       sociopolíticas. As complexidades e os desafios da
                         preservação do património digital podem ser resumidos da seguinte
                         forma: a leitura de código e software antigos pode ser difícil; tecnolo-
                         gias obsoletas e a dependência de entidades terceiras, muitas vezes
                         comerciais, criam problemas; a manutenção de software e hardware
                         pode ser extremamente demorada e dispendiosa; mudanças introdu-
                         zidas por diferentes pessoas ao longo do tempo tornam os projetos
                         inconsistentes; e, particularmente no caso de projetos artísticos, as
                         obras podem evoluir para outras versões, tornando difícil definir o que
                         a obra é ou de que consiste no ambiente digital . Embora a prática
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                         de conservação digital descrita neste capítulo seja específica para
                         o património cultural e as criações artísticas, as complicações,
                         desafios e soluções também são relevantes para a compreensão das
                         questões mais amplas da cultura em rede, que é caracterizada por
                         uma assemblagem semelhante de atores humanos e não humanos .
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                             Nas últimas duas décadas, surgiram diversas soluções para
                         preservar património digital . Embora algumas funcionem bem, em
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                         muitos casos o conteúdo e as informações mudam, já que a maior
                         parte do hardware e software segue um modelo económico de
                         obsolescência programada . Consequentemente, foram desenvol-
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                         vidos ferramentas e projetos de migração, emulação, virtualização
                         e documentação para prolongar a funcionalidade do património
                         digital. Contudo, um foco excessivo em métodos técnicos de
                         ponta para a preservação revela-se insustentável e questionável.
                         Isto ocorre ao nível do método: abordagens de preservação, como
                         a migração, emulação ou virtualização, correm o risco de alterar
                         a forma e o conteúdo dos projetos. Além disso, com cada atuali-
                         zação de software, o ambiente dos suportes em que estes projetos
                         existem pode alterar ainda mais a sua estética e funcionamento .
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           Annet Dekker
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