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23. Ibid. na conservação, e mais especificamente em projetos
24. Ibid. de arte digital, entendo o cuidado como uma atividade
25. Ver Deleuze e Guattari específica, situada e complexa, mas também relacional
(2004 [1980], p.48). e processual, que se desenvolve ao longo do tempo,
26. Uma discussão sobre em vez de ser realizada num único momento. Como
“rede” está além do âmbito
deste capítulo; no entanto, Mol e Hardon destacam, a “atividade de cuidar não
é importante salientar que,
enquanto Deleuze e Guattari é assumida por indivíduos isolados, mas distribuída
enfatizam o dinamismo por um vasto leque de pessoas, ferramentas e infraes-
e, consequentemente,
a temporalidade (ou o devir truturas. Este cuidado não se opõe à tecnologia,
dos componentes) no seu 23
pensamento, assumo que algumas mas inclui-a” . Além disso, “a tecnologia envolvida
entidades também serão não oferece controlo, mas precisa de ser manuseada
relativamente estáveis. Assim,
a rede não é necessariamente com cuidado – ao passo que, por sua vez, só funciona
sempre baseada na igualdade; 24
em certos momentos, enquanto é cuidada” . Gostaria de expandir esta pers-
componentes específicos petiva, enfatizando a agência da tecnologia dentro
podem ter mais agência do
que outros. Contudo, uma e através da rede de cuidado.
compreensão aprofundada de
todos os componentes e das
suas relações é necessária
para entender essas dinâmicas.
É a tensão entre eles que ENQUADRAR UMA REDE DE CUIDADO
fundamenta as práticas de
preservação.
O conceito de “rede” possui uma longa história e pode
significar diferentes coisas em várias disciplinas e discursos. Aqui, sigo
de forma livre a descrição de Deleuze e Guattari, que caracterizam
uma rede – utilizando o termo rizoma – como um sistema de conexões
não hierárquicas sem fronteiras claramente definidas: “Um rizoma não
começa e não acaba, está sempre no meio, entre as coisas, inter-ser,
intermezzo.” . Isto significa que uma rede é um sistema dinâmico
25
sobre o qual não há evidencia de quando ou onde começa, ou de quem
a inicia, nem de que o seu desenvolvimento possa ser previsto . Esta
26
temporalidade do cuidado não é invulgar: mesmo as práticas institucio-
nais e convencionais de preservação tendem a ocorrer em momentos
imprevisíveis – seja quando algo se parte durante uma exposição,
ou quando um objeto é retirado do depósito devido a um pedido de
empréstimo e, então, examinado.
Uma das conclusões do meu trabalho anterior sobre a conservação
de net art foi que esses esforços de preservação são frequentemente
mantidos e/ou prolongados por diferentes indivíduos que colaboram
enquanto uma rede de cuidado. Ao abordar estas redes como cuidado,
pretendo chamar a atenção para a importância de práticas e experiên-
cias que são tornadas invisíveis ou marginalizadas pelas formas conven-
cionais e dominantes de preservação institucionalizada “bem-sucedida”
– e na sua maioria ocidentais. Do ponto de vista pragmático, uma rede
de cuidado baseia-se numa atitude transdisciplinar e numa combinação
de profissionais e não especialistas que gerem ou trabalham num
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Annet Dekker
Annet Dekker

