Page 137 - Fundação MEO - Net Arte no Triângulo das Bermudas
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14. Ver Nowvisky (2019), afetar a sustentabilidade do património digital,
Prelinger (2019) e Rinehart sobretudo porque estes tópicos podem desafiar
e Ippolito (2014).
valores e processos institucionais . Além disso, ao
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15. Para mais informações
sobre como descrevo as concentrarem-se na unicidade do objeto e nos seus
características da net art,
ver Dekker (2018, pp.19–33). aspetos técnicos, negligenciaram a importância da
16. Ver Fitzpatrick (2011). infraestrutura sociotécnica complexa e inerentemente
17. Ver Laurenson e Van Saaze mutável em que os projetos de arte digital prosperam.
(2014).
A sustentabilidade, no sentido de preservação, é tanto
um problema de governança quanto de restrições técnicas e ambien-
tais. Neste capítulo, deixo para trás a abordagem económica ou
a definição de benchmarks de sustentabilidade quantificáveis para
enfatizar outra área potencial em que a preservação digital pode
tornar-se mais sustentável: através do foco no potencial das redes
de cuidado como forma de preservar um projeto artístico. Embora
estes processos ocorram em todos os tipos de arte, manifestam-se
de forma particularmente evidente em projetos de net art, pois
nestes casos há fortes dependências relacionais entre diferentes
tecnologias, pessoas (artistas e utilizadores) e ideias que cooperam
para a realização de um projeto artístico . Torna-se claro que tal
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abordagem não é meramente uma solução material ou técnica para
reparar um projeto, já que muitos projetos de net art – semelhantes
a uma imagem-assemblagem em rede e relacional – estão enraizados
e desenvolvem-se como parte de um ambiente sociopolítico e técnico
que deverá ser considerado quando pensamos na sua preservação.
O CUIDADO COMO DISPOSITIVO CONCEPTUAL
E MÉTODO PRÁTICO
Em 2011, Kathleen Fitzpatrick, académica nas áreas das humani-
dades digitais e dos estudos de media, sugeriu que a preservação de
objetos digitais poderá deixar de se centrar em “novas ferramentas
e passar a focar-se em novos sistemas organizados socialmente,
sistemas que aproveitem o número de indivíduos e instituições que
enfrentam os mesmos desafios e procuram os mesmos objetivos” .
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De forma semelhante, em 2014, Pip Laurenson, chefe de investigação
de coleções na Tate, e a investigadora Vivian van Saaze concluíram,
no contexto da preservação de performance art em museus, que:
“O maior desafio que os museus enfrentam atualmente […] não
reside no problema da imaterialidade, mas sim em manter as redes
que sustentam um trabalho concebido como um processo de envol-
vimento ativo” . Embora a importância de considerar a preservação
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dentro de uma estrutura em rede, composta por relações sociais,
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Annet Dekker
Annet Dekker

