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utilizadores e outros), bem como os elementos materiais e técnicos
    (como o software, hardware e os sistemas de documentação utili-
    zados), aceitando que esses componentes podem mudar ao longo
    do tempo. Por fim, recordando Mol et al. (2010), a mudança não
    é alcançada pelo controlo desses elementos, mas deve ser vista
    como inerente aos próprios elementos. Assim, o cuidado é temporal
    e contínuo, ocorrendo através de experimentação, adaptação
    e mutação. Noutras palavras, esta abordagem segue as caracterís-
    ticas de uma rede de cuidado, conforme delineado anteriormente.



    UMA REDE DE CUIDADO, OU A PRESERVAÇÃO COMO
    UM PROCESSO EM EVOLUÇÃO


    Referindo-se a recursos e objetivos partilhados, uma rede de cuidado
    inclui as relações sociais e negociações necessárias para produzir
    e manter uma rede e um projeto. Como modelo de conhecimento
    partilhado, implica que nenhuma pessoa detém toda a informação
    nem todo o poder, já que os diferentes elementos e competên-
    cias estão distribuídos. Por outras palavras, todos podem possuir
    parte de um projeto, mas é a rede que governa o todo. Em linha
    com a sugestão de Fuller sobre uma “estética da colaboração”,
    uma plataforma técnica pode funcionar como um elemento unifi-
    cador, mantendo relações sociais e elementos técnicos potenciais
    interligados. Por exemplo, quando partes de um projeto (ou a sua
    totalidade) também são arquivadas na plataforma. Além disso,
    a construção técnica da plataforma pode informar o modo como
    a troca de informações ocorre e a capacidade de acompanhar as
    mudanças históricas. Consequentemente, a plataforma pode code-
    terminar o sucesso de uma rede. Desta forma, pode argumentar-se
    que a tecnologia também cuida.
        Em vez de se focar em elementos materiais específicos de um
    projeto ou num resultado particular, esta abordagem considera
    a preservação digital como um processo cíclico contínuo e em
    evolução, no qual diversos cuidadores se reúnem, partilham as suas
    ideias, mas também se dispersam, reagrupam e mudam, poten-
    cialmente ad infinitum. Isto inclui reconhecer que, além das ações
    dos humanos, os materiais e as tecnologias afetam intrinseca-
    mente o projeto artístico, assim como o método de preservação.
    Juntos, podem oferecer novas perspetivas sobre o pensamento e a
    prática da preservação. A preservação digital, entendida como uma
    rede relacional de humanos, materiais e tecnologias, é executada,
    reage e, consequentemente, evolui ou transforma-se, tornando-se


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    Redes de Cuidado
    Redes de Cuidado
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