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42. Ver Ho (2012). REDE DE CUIDADO COMO PROPOSTA
43. Entrevista pessoal com Shu
Lea Cheang, 19 de abril de 2019.
Ao apresentar alguns dos resultados da minha inves-
tigação anterior sobre o conceito de rede de cuidado,
frequentemente me perguntavam o que significa criar ou fazer parte
de uma, especialmente do ponto de vista de uma instituição. Como
me tinha focado em projetos de artistas, também me questionei
sobre o que envolveria criar e sustentar uma rede de cuidado numa
perspetiva institucional. Assim, a historiadora de arte Karin de Wild
e eu iniciámos um estudo-piloto para analisar os diferentes atores
dentro de uma rede de cuidado, procurando compreender os seus
papéis potenciais, bem como os benefícios e desafios de configurar
e manter uma rede desse tipo. Selecionámos o projeto artístico
Brandon, de Shu Lea Cheang. Ambas já tínhamos trabalhado
com Cheang anteriormente, e Brandon tinha sido restaurado
em 2017 pela equipa de conservação do Guggenheim, em cola-
boração com o departamento de computação da Universidade de
Nova Iorque (NYU). A restauração focou-se principalmente na repro-
gramação do sítio, mas outros elementos e parceiros anteriores
do projeto estiveram menos envolvidos nos esforços de preser-
vação. O nosso objetivo era avaliar se seria útil formar uma rede de
cuidado em torno do projeto para destacar os diferentes aspetos
de Brandon, incluindo os seus colaboradores e programadores.
Tal rede parecia relevante, já que Cheang enfatizou em várias entre-
vistas que “Brandon é uma colaboração multiartística, multilocal
e multi-institucional” , e desde o início a ideia era manter o projeto
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em crescimento . Começámos por localizar e conversar com as
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principais instituições envolvidas nas várias fases de desenvolvi-
mento do projeto, para entender como percebiam o seu papel num
eventual futuro para Brandon. Esses diferentes intervenientes
eram cruciais para compreender a natureza complexa do projeto,
que se expandiu para além do sítio principal, bem como para avaliar
a relevância de Brandon no momento em que foi criado, o seu
desenvolvimento e a sua atual importância histórica. Assim, o que
constitui Brandon?
Cheang iniciou Brandon em 1996 como uma crítica à norma-
tividade social. O projeto baseava-se diretamente em dois artigos
publicados no Village Voice: o caso judicial em torno do abuso
sexual e morte de Brandon, um jovem de 21 anos do Nebrasca rural,
assassinado por viver como homem apesar de ter nascido mulher,
e um aviso sobre uma série de violações numa plataforma chat de
texto, que deixou as vítimas expostas e desamparadas perante
a violação da sua privacidade. Estes eventos abordavam alguns dos
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Annet Dekker
Annet Dekker

