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39. Ver Harrison (2015, p.27).   salvaguardem vários ficheiros (uma seleção aleatória
                                       do seu projeto anterior, Expunction).
                         Procurando outros modos de distribuir, partilhar e experienciar
                         a arte que está presa e comprimida nos ficheiros removidos, Igor
                         está a organizar uma rede emergente de guardiões, ou cuidadores,
                         orientada para o devir em vez do ser .
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                         Fig. 2 E-mail Igor Štromajer, –oμ4x, 2016, captura de ecrã.

                             O projeto propõe novos modos de envolvimento ativo e uso
                         criativo, e demonstra uma forma engajada de lidar com circulação
                         e relações, em que os efeitos distributivos são intencionais, mesmo
                         que o que finalmente aconteça seja imprevisível. Além disso,
                         a repetição do ato performativo de enviar e receber transforma
                         a singularidade de um afeto num compromisso sustentado. O período
                         prolongado de espera por algo que possa acontecer reafirma
                         a realidade dos eventos que se desdobram, mesmo que o desfecho
                         seja desconhecido. O projeto pode desiludir, mas essa é também
                         a sua beleza: a potencialidade do evento – o suspense ou sugestão
                         de infinito ou de fazer parte de uma aventura, que só se torna clara
                         quando nos envolvemos nela. De facto, essas imagens são, por si
                         só, pouco interessantes, mas, em conjunto e como parte de um todo
                         maior, tornam-se cativantes porque sugerem potencialidade. Como
                         sugere Štromajer:
                             “É uma espécie de ciclo, uma performance de duração inde-
                         finida, talvez eterna, com o seu ritmo natural: sendo construída,
                         desconstruída e depois reconstruída de novo, mas desta vez de
                         forma diferente. Quem sabe exatamente o que virá a seguir, mas
                         certamente não há fim para este ciclo, porque cada traço, cada
                         movimento que fazes, tem as suas consequências” .
                                                                            40
                             Não há lógica ou previsibilidade, e embora as imagens indivi-
                         duais e outros ficheiros permaneçam autónomos, juntos, com os
                         e-mails dispersos, tornam-se imagens em rede que simbolizam uma
                         promessa, uma proximidade que um dia poderá ser cumprida. Com
                         efeito, o projeto alimenta um desejo contínuo que retorna com


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           Annet Dekker
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