Page 11 - Fundação MEO - Coleção de Arte Contemporânea
P. 11
11 ¶ Em documentação posterior, os asses- ¶ Este contexto certamente motivou
sores referiram situar as aquisições a partir as instituições a inscrevem as suas aquisições
dos anos 1960 sem, todavia, obedecerem a partir destes anos. A coleção de arte con-
a parâmetros cronológicos rígidos. O alicerçar temporânea da Fundação de Serralves viu o
da coleção naqueles anos prendeu-se com a conceito ancorar-se na ideia de Circa 68 para
Coleção de Arte Contemporânea Fundação MEO Coleção de Arte Contemporânea Fundação MEO Coleção de Arte Contemporânea Fundação MEO
riqueza da produção artística observada quer representar este período paradigmático na
no país, quer a nível internacional. Referem história ocidental, através da lente das artes
não ter sido opção representar exaustivamente plásticas . A coleção da Caixa Geral de
14
nomes nem percursos historiográficos, mas Depósitos, gerida pela Fundação Caixa Geral
antes “reunir um conjunto de obras original de Depósitos – Culturgest e iniciada em 1983,
e plasticamente coerente e dialogante” . teve as aquisições situadas a partir dos anos
11
1960 com o foco na arte portuguesa e segundo
¶ A década de 1960 foi de grande riqueza parâmetros museológicos. Foi uma proposta
em termos artísticos. Os artistas criaram do artista e consultor Fernando Calhau (entre
obras, usando imagens da cultura popular os anos de 1992 e 1993) . A coleção da Fundação
15
e do universo publicitário (nouveau réalisme, Luso-Americana para o Desenvolvimento
pop art). Outros desenharam objetos numa – FLAD, iniciada em 1986, teve o seu conceito
extensão do abstracionismo e de uma simpli- definido, estipulando-se os anos 1960 como
ficação formal, reduzindo a forma ao mínimo, o período a partir do qual se realizariam
à sua “estrutura primária” e à produção serial as aquisições de artistas portugueses
(minimalismo) . Outros, ainda, utilizaram e norte-americanos .
12
16
materiais pobres e reutilizados (arte povera).
Também houve os que intervieram na paisa-
gem e inscreveram o seu corpo nela (land art, Por conseguinte, situar a coleção da Portugal
arte ecológica), ou que testarem novos media, Telecom na arte portuguesa produzida a partir
como o filme e a fotografia que se vulgariza- deste período dos anos 1960 afigurava-se
ram nas artes plásticas. Foi um período de consensual entre o colecionismo institucional
forte experimentação, onde o museu foi dos museus e das empresas. Este recuo cro-
alvo de reflexão e crítica, onde se explorou nológico também permitiria criar um discurso
o primado da ideia, do texto como suporte consistente e referencial para os artistas mais
para projetos concetuais (arte concetual), recentes, que estavam ativamente a desenvol-
e se promoveu a desmaterialização da obra ver o seu trabalho, nos anos 1990.
de arte, expandindo os seus limites.
¶ O prolífico questionamento nas artes que
se observou levou a uma mudança de paradigma
que determinou a produção artística seguinte,
razão que leva muitos autores a situarem
a arte contemporânea nesta cronologia .
13
11. and British Sculptors”. 15. 16.
Ofício de Marina Bairrão Esta exposição é tida por Com Fernando Calhau, Foram seus consultores
Ruivo e de Pedro Portugal introdutora do minimalismo. a coleção ganhou uma Manuel Castro Caldas
dirigido a Zeinal Bava, dimensão museológica. e Rui Sanches (1986-1991)
Presidente da Comissão 13. Emílio Rui VILAR, s. t., e, depois, Manuel Costa
Executiva da Fundação HOPKINS, David; After Arte moderna em Portugal. Cabral (1991-1996), tendo
Portugal Telecom, a 29/7/2010. Modern Art 1945-2000, Oxford Coleção de arte da Caixa Manuel Castro Caldas
Arquivo Fundação MEO. University Press, 2000. Geral de Depósitos, Lisboa, regressado àquela função
Caixa Geral de Depósitos, em 1999 (Nuno FARIA,
12. 14. 1993, s.p.; SARDO, Delfim, A Fundação Luso-Americana
O termo “estrutura primária” TODOLÍ, Vicente; “Uma coleção é uma teia e a arte contemporânea,
decorre da exposição FERNANDES, João, “Circa de emoções e memórias”, Lisboa: Fundação
ocorrida no Jewish Museum, 1968: em torno de uma ideia in Abrir a Caixa. Obras da Luso-Americana, 2001,
de Nova Iorque, em 1966, de museu e de colecção”, in coleção da Caixa Geral de p. 12 e segs).
curada por Kynaston Circa 1968, Porto: Fundação Depósitos, Lisboa: Fundação
McShine, intitulada “Primary de Serralves, 1999, p. 15. Caixa Geral de Depósitos –
Structures: Younger American Culturgest, 2009, pp. 7-15.

