Page 14 - Fundação MEO - Coleção de Arte Contemporânea
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presença e ausência, que veio a explorar com ¶ Voltando ao programa de aquisições 14
mestria em distintos suportes, como plexiglas de 1997, depois da escolha daqueles “nomes
recortado, ou em lençóis bordados com con- incontornáveis”, a opção dirigiu-se para obras
tornos de sombras de pessoas deitadas que mais recentes, de “artistas com currículo
bordou, a partir de 1968 . nacional e internacional” . A exemplificar,
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nomearam Eduardo Batarda, Fernando Calhau
¶ De Álvaro Lapa, as três pinturas da e Jorge Martins, artistas cuja formação se
coleção são representativas das seguintes completou fora de Portugal, em torno dos
séries: Que horas são que horas – descrição de anos 1970. Batarda estudou pintura no Royal
um abismo, de 1975, Gauguin, de 1979, e Cam- College of Art, em Londres (1971-1974) com
péstico, de 1986 (Doc. 3). Gauguin é um acrílico apoio da Fundação Calouste Gulbenkian,
sobre papel, adquirido na Galeria Hugo Lapa, Calhau estudou na Slade School de Londres
em 1997, e inaugura o inventário da coleção. (1974-1975), também com apoio da Fundação
Campéstico é uma pintura acrílica sobre pla- Gulbenkian, e Jorge Martins saiu de Lisboa,
tex, comprada a um colecionador privado, em por motivações políticas, rumo a Paris (entre
1998, a única obra da coleção com esta prove- 1961-1986), e esteve brevemente em Nova Iorque
niência . Pertence a uma série que Lapa forjou (1975-1976), antes de se fixar em Lisboa,
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a partir do romance Finnegans Wake, de James já no início dos anos 1990.
Joyce, onde o escritor criou uma linguagem
a partir da fusão de palavras, como Dumbestic. ¶ Eduardo Batarda é autor de cinco obras
Álvaro Lapa usa o mesmo procedimento em na coleção. Referimos que esta é uma coleção
campéstico, “associa campo e doméstico”, de artistas, onde a presença de núcleos, que
ou seja, articula os opostos “muito fora de permitiriam dar a conhecer as fases dos artistas,
casa e muito dentro e casa” . A terceira, Que não foi uma opção dos assessores. Porém, estes
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horas são que horas – Descrição de um abismo, manifestaram preocupação por adquirir obras
é uma pintura acrílica sobre platex adquirida aos artistas em distintos formatos: “propomo-
ao artista (Doc. 4). Este último também per- -nos adquirir uma obra em papel e uma pintura do
tence a uma série, com o título Que horas são mesmo artista, permitindo uma melhor repre-
que horas, realizada no pós-25 de abril, onde sentação do artista em diferentes suportes” .
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Álvaro Lapa demonstra a relevância do texto
e da literatura na sua obra pictórica, inscre- ¶ No caso de Eduardo Batarda, apesar
vendo palavras a stencil, o título da série, e daquele número, seria interessante representar
onde a presença da grelha sugere a prisão que a ampla trajetória do artista. As obras da cole-
o período político anterior representa, trazendo ção foram compradas à Galeria 111, três pinturas
memórias do seu pai preso , ao mesmo tempo sobre tela, em 1997 e, entre 2004-2005, foram
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que abre a esperança no devir, no tempo que dois acrílicos sobre papel, intitulados Gk
se inicia, e citamos: “Que horas são que horas, e Majora. Nestes trabalhos, Batarda desenvolve
descrição de um abismo. A visão de aqui, Ora uma depuração de formas orgânicas, aparente-
aqui está. Onde pernoitas, cansas, recuperas mente monocromática . As pinturas anteriores,
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a pronto. Quanto ‘te vês’, é tudo”. dos anos 1990, são obras de maturidade onde
Batarda prossegue uma pesquisa satírica
28. Campéstico de Álvaro Lapa, 31. 33.
Lourdes Castro, Lisboa: da sua coleção particular, com PÉREZ Miguel von Hafe , Idem.
Galeria 111, 1970. a data de 2 de setembro de “Álvaro Lapa: Modernidade
1998. Arquivo Fundação MEO. platex”, idem, p. 16. 34.
29. PÉREZ, Miguel von Hafe,
Ofício de Fernando D. B. 30. 32. “Trompe l’Esprit”, in Eduardo
Pinheiro dirigido ao Depar- PÉREZ, Miguel von Hafe “Programa de aquisições. Batarda, miniaturas e
tamento de Comunicação, (Ed.), Álvaro Lapa, No tempo 1997”, documento subscrito pequenos formatos, Lisboa:
Imagem e Publicidade da todo, Porto: Fundação por Marina Bairrão Ruivo Galeria 111, s.p.
Portugal Telecom S.A., onde de Serralves, 2018, p. 183. e Pedro Portugal. Arquivo
declara que recebeu o paga- Fundação MEO.
mento de 1 milhão e 800 mil
escudos pela venda de

