Page 16 - Fundação MEO - Coleção de Arte Contemporânea
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Pedro Proença, Pedro Portugal, aqui com duplo     aos valores formais do abstracionismo de              16
       papel, de proponente e proposta, Xana, Fernando     Ad Reinhardt, e não perdendo de vista a influên-
       Brito e Ivo. Tinham por ambição problematizar     cia do quadrado negro de Kazimir Malevich .
                                                                                                  42
       o conceito de arte à maneira dadaísta, fazendo
       uso da ironia e do humor como estratégia          ¶      Outros artistas desta geração, que
       de intervenção crítica no espaço artístico,       tiveram as suas primeiras exposições indivi-
       um “espaço de liberdade partilhada” .             duais a partir dos anos 1980, ingressaram na
                                          39
                                                         coleção naquele ano de 1997, reforçando-a.
       ¶      Manuel João Vieira é autor de quatro       Trata-se de Pedro Casqueiro e José Paulo
       peças na coleção, a tinta-da-china sobre          Ferro, ambos com obra na coleção proveniente
       papel, dos anos 1990, adquiridas ao artista.      de galerias. Do primeiro, Sem título (LI 73/97),
       Pedro Portugal tem cinco obras na coleção,        é um acrílico sobre tela, de 1997, adquirido no
       três datadas dos anos 1990 e adquiridas ao        Módulo – Centro Difusor de Arte, em Lisboa.
       artista, duas posteriores, de 2004, provenientes   Pedro Casqueiro apresenta uma pintura com
       da Galeria Fernando Santos. Pedro Proença as-     uma composição estruturada, numa abstração
       sina quatro peças, a tinta-da-china sobre papel,   geometrizante e simplificação formal, na
       realizadas nos anos 1990 e compradas entre        qual uma sucessão de círculos concêntricos
       1997 e 1999, sobre as quais nos vamos deter.      orienta o olhar para o alvo central, usando
                                                         uma paleta de tons clara. A segunda, intitulada
       ¶      The Dangerous Plurality (rereading again   Ampliação, é um exercício de abstração, onde
       again and again), de 1994, Unacceptable Truth,    o artista manipula o azul, simulando a ampliação
       de 1994, e Sem título, de 1998, são três desenhos   da cor, aclarando-a em manchas. Proveniente
       a tinta-da-china sobre papel, que podemos         da Galeria Diferença, a pintura foi mostrada na
       situar na tradição das gravuras quinhentistas     exposição Ampliações à mão (eu também quero
       e seiscentistas. Em relação ao primeiro, com      ser máquina), em 1997, no âmbito do projeto
       uma estética ornamental, faz parte da série       Lisboarte contemporânea, que teve o apoio
       À mesa, com certeza. Representa uma “cria-        da Câmara Municipal de Lisboa .
                                                                                        43
       tura híbrida, um masculino-feminino, um deus
       ‘cacteo’ da natureza, mas também da cultura       ¶      O programa de aquisições prosseguiu
       (da sua cabeça nasce uma construção, alusão       no sentido de consolidar e validar os critérios
       irónica ao tema heideggeriano de que pensar       desenhados.
       é construir/habitar)”. Proença inscreveu dois
       animais, um cisne-pato e uma tartaruga, com
       tiras de texto, Phatological, e Rereading again
       again and again, e ambos de carácter simbólico
       que “transmitem a ideia do continuum da arte-
       physis”, onde natureza e cultura não diferem .
                                                   40
       Para além daquelas palavras e de Philantropos,
       também inscreveu o título da obra. Em relação
       a Sem título, um desenho mais tardio de 1998,
       como mencionado, Proença ignora a “diferença
       entre o humano, animal, vegetal, mineral ou
       coisa manufacturada”, representando uma           39.                      42.
       figura onde crescem elementos vegetalistas        ALMEIDA, Marta Moreira de,   Pedro Proença adiciona-lhes
       e animália . É um trabalho apologético            “6=0?”, Homeostética, 6=0,   significado e humor através
                 41
                                                                                  das respetivas legendas
                                                         Porto: Fundação
       do ornamento. Com ele, Pedro Proença faz          de Serralves, 2004, p. 21.  (ver a sua obra em destaque).
       uso da fina ironia para chamar atenção sobre
       a “perigosa pluralidade” face às atitudes         40.                      43.
                                                                                  Exposição de pintura de José
                                                         Informação facultada à
       anti pluralistas da época. Do mesmo autor,        autora pelo artista via email,   Paulo Ferro, “Ampliações
       na coleção preserva-se Black is Black, de 1991.   21 de junho de 2023.     à mão” (e também quero
       São 18 desenhos que estão nas antípodas dos       41.                      ser máquina), Lisboa: Galeria
                                                                                  Diferença, 1997. [Folheto]
       referidos e foram comprados ao artista, em        Idem.                    A pintura vem reproduzida
       1999. É uma série de desenhos negros, onde                                 no folheto; Ficha de obra,
       a figura do quadrado se vislumbra nas suas                                 título: “Ampliação”, Diferença
                                                                                  Comunicação Visual, s.d..
       sucessivas camadas, em aproximação visual                                  Arquivo Fundação MEO.
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