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Pedro Oliveira, no Porto. De Jorge Molder             18
                                                         é uma fotografia a preto e branco, Sem título
                                                         da Série Inox (JM012), de 1995; de Júlia Ventura
                                                         é uma fotografia a cores, Geometrical
                                                         reconstructions and figures with roses N.º 5,
                                                         de 1987. Artistas com percursos distintos
                                                         e singularizados, em comum, ambos fazem
                                                         uso do corpo como modelo de uma narrativa,
                                                         de construção de personagens. Na série Inox,
                                                         Jorge Molder remete para Inocêncio X
                                                         a pintura de c. 1650, onde o papa foi retratado

       Fig. 2   Helena Almeida, Estudo para um enriquecimento   de modo realista pelo pintor espanhol Diego
       interior, de 1977-1978. Série de 6 fotografias, 52 x 42 cm. Parte   Velásquez. Na proposta de Molder, este
       detrás da série, com indicação do posicionamento e as etiquetas  manipula a luz, focando-a no olhar e na mão,
                                                         para criar tensão e verismo na imagem, em
                                                         citação cinematográfica. Júlia Ventura faz-se
       de modo performativo e encenado, problemati-      representar com um bouquet de rosas,
       zando o próprio médium da pintura. Considerada    de uma alvura branca, virginal, e olhar cândido.
       obra de “raridade e qualidade” no percurso da     A postura formal adotada e o filtro do retrato
       artista, os assessores da coleção argumentam      em diagonal sugerem a imagem estereotipada
       que a peça permite enquadrar, por um lado,        da inocente figura feminina.
       o conjunto de escolhas feitas em torno dos
       anos 1960 e posteriores – Joaquim Rodrigo,        ¶      Regressando à proposta de aquisições
       João Vieira, Lourdes Castro, Álvaro Lapa,         de 2001, Auto-retrato, da série Fifteen Years:
       Jorge Martins, Eduardo Batarda, António           Chelsea Hotel é uma fotografia de Rita Barros,
       Palolo, Joaquim Bravo, Fernando Calhau –,         adquirida à artista . Esta fotografia integra
                                                                           51
       e reforçar, por outro, o núcleo de autorrepresen-  uma série que Rita Barros realizou sobre o
       tações e retratos que ganhava forma através       hotel nova iorquino, onde capta fragmentos
       da aquisição de peças de Gaëtan, Jorge Molder,    do ambiente de intimidade daquele espaço
       Marta Wengorovius e Eva Mota (Doc. 6, Doc. 7) .    célebre que atraiu figuras da cultura artística
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       A peça é estruturante na coleção por recuar aos   e literária, com reconhecimento internacional,
       anos que se constituem como matriz, a partir      como Leonard Cohen e Andy Warhol.
       dos quais a coleção se desenvolve, e sobretudo    Na imagem, a fotógrafa autorretrata-se, recli-
       pela disruptividade concetual que representa.     nada sobre uma mesa com as pernas cruzadas,
                                                         sapatos prateados, rodeada por bibelots de
       ¶      Jorge Molder e Júlia Ventura também        citação pop, o telefone prateado, as molduras
       não figuram naquela proposta de aquisições.       com reproduções de Andy Warhol e Roy
       O motivo reside, talvez, no facto da coleção,     Lichtenstein, os sacos também com reprodu-
       à data, ostentar uma obra de cada um dos          ções pop, elevados à categoria de obras pen-
       artistas compradas no ano de 1998 à Galeria       duras na parede . A posição inesperada que
                                                                         52





       50.                      diversas vezes referida como   assinado por Mónica   52.
       “Proposta de aquisição   tendo valorizado de forma   Constantino, em outubro de   A série foi inicialmente
       para a Coleção de Arte   expressiva, reforçando que   2019. Arquivo Fundação MEO.  apresentada em Portugal,
       Contemporânea da Portugal   as opções dos assessores                      nos Encontros de Fotografia,
       Telecom da obra “Estudo   foram assertivas na ótica do   51.               de Coimbra, em 1992,
       para um enriquecimento   investimento da coleção. Em   A proposta da compra    e depois na Galeria 111,
       interior”, 1977-1978 (6 foto-  outro documento, refere-se   da obra data de 2001, embora   em 1999; no Brasil, entre 1996
       grafias p/b e acrílico,    que o valor da coleção viu   haja um pedido de faturação    e 1998, e também em Cuba,
       52 x 42 cm cada) de Helena   um acréscimo de valor na   mais tardio, de 2005. “Factura”,   em 2001. “Histórico da obra”.
       Almeida, assinado por    ordem dos 297%, entre o   de Rita Barros dirigida à   Arquivo Fundação MEO.
       Marina Bairrão Ruivo e   que foi investido e o valor   Fundação Portugal Telecom,
       Pedro Portugal, junho de   apurado na avaliação feita   de 11 de janeiro de 2005.
       2001. Arquivo Fundação   no ano de 2016. “Coleção   Arquivo Fundação MEO.
       MEO. De notar que a obra   de Arte Contemporânea da
       de Helena Almeida foi por   Fundação MEO”, documento
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